Goalball: regras, como se joga e o goalball no Brasil

O goalball é um esporte coletivo criado para pessoas cegas e com deficiência visual. Duas equipes de três jogadores arremessam com as mãos uma bola com guizos, rolando-a pelo chão, para fazê-la cruzar o gol adversário, e todos jogam vendados. É esporte paralímpico desde Toronto 1976, e no Brasil quem administra a modalidade é a Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV).

Abaixo você encontra as regras atuais da IBSA, a quadra e a bola, as classes B1, B2 e B3, a origem do jogo, as conquistas do Brasil, o goalball nas Paralimpíadas Escolares e como a modalidade se organiza em Portugal.

Em resumo

  • Três contra três, todos vendados. Cada equipe tem três jogadores em quadra e até três reservas, e a venda vale para todos do começo ao fim de cada tempo.
  • Quadra do tamanho da de vôlei. São 18 por 9 metros, e o gol ocupa toda a largura: 9 metros, com 1,3 m de altura (CBDV).
  • Uma bola que se ouve. Pesa 1.250 g, tem de 24 a 25 cm de diâmetro e dois guizos por dentro (regra 4.1 da IBSA).
  • Jogo de 24 minutos. São dois tempos de 12 minutos, e a partida acaba antes se uma equipe abrir 10 gols de diferença (CBDV).
  • O Brasil está entre os melhores. A seleção masculina foi prata em Londres 2012, bronze no Rio 2016, ouro em Tóquio 2020 e bronze em Paris 2024, e ganhou os Mundiais de 2014, 2018 e 2022 (CBDV).

O que é o goalball

O objetivo é marcar gols. Cada equipe arremessa a bola com as mãos, rolando-a pelo chão, para que ela cruze a linha de gol do adversário, enquanto a outra equipe tenta impedir. Cada time fica na sua metade da quadra, separada pela linha central, e os mesmos jogadores arremessam e defendem.

Tudo depende do som. A bola tem furos para que os guizos sejam ouvidos enquanto ela se move, e por isso, como explica a CBDV, "não pode haver barulho enquanto a bola está em jogo". O CPB acrescenta que o público pode se manifestar no intervalo entre um gol e o reinício do jogo e nas paradas oficiais.

O goalball não nasceu da adaptação de outro esporte. A CBDV o define como "o único esporte paralímpico não adaptado": ele foi pensado desde o começo para pessoas com deficiência visual. Para quem estuda educação física, um detalhe útil: nos trabalhos reunidos na área acadêmica da CBDV, ele aparece descrito como modalidade coletiva sem invasão territorial. Cada equipe defende o próprio campo e não entra no do adversário.

Regras do goalball

As regras são da Federação Internacional de Esportes para Cegos (IBSA). A versão em vigor é a de 2025 (v1.0), e a CBDV publica a tradução oficial em português na sua página de regras. Se houver diferença entre a tradução e o original, vale o texto em inglês. Estes são os pontos principais:

Tema O que diz a regra
Equipes 3 jogadores em quadra e até 3 reservas; masculino e feminino jogam separados
Duração 2 tempos de 12 minutos, com intervalo de 5 minutos
Fim antecipado O jogo acaba quando uma equipe abre 10 gols de diferença
Empate Se for preciso um vencedor, prorrogação de 6 minutos: o primeiro gol vence. Depois, cobranças extras (extra throws)
10 segundos Desde o primeiro contato na defesa, a equipe tem 10 segundos para fazer a bola cruzar a linha central
High ball A bola precisa tocar o chão antes da linha de 6 metros, ou em cima dela
Long ball A bola também precisa tocar o chão pelo menos uma vez na área neutra
Vendas Todos em quadra usam vendas; óculos de grau e lentes de contato são proibidos

Tocar de propósito na própria venda, ou na de outro jogador, sem permissão do árbitro gera uma penalidade. Nas penalidades individuais, a outra equipe cobra um arremesso e é o próprio jogador penalizado quem faz a defesa. Barulho desnecessário de quem está arremessando também é punido.

A quadra e a bola

A quadra tem 18 metros de comprimento por 9 de largura e é dividida a cada 3 metros, o que forma seis áreas:

Parte da quadra Medida e função
Área de equipe (uma em cada fundo) 6 m × 9 m, dividida em área de orientação, junto ao gol, e área de lançamento, mais à frente
Área neutra 6 m × 9 m no meio da quadra, cortada pela linha central
Gol Ocupa toda a largura: 9 m por 1,3 m de altura
Linhas 5 cm de largura, com um barbante de 3 mm por baixo da fita adesiva

O barbante é o detalhe que mais chama a atenção de quem vem de fora. As linhas têm relevo para que os atletas possam tateá-las e saibam, pelo toque, onde estão a qualquer momento. É a mesma ideia do piso tátil: informação no chão, lida com o corpo.

A bola, segundo a regra 4.1:

  • Diâmetro: 24 a 25 cm, com circunferência de 75,5 a 78,5 cm.
  • Peso: 1.250 g, com tolerância de 50 g para mais ou para menos.
  • Som: 8 furos, 4 em cada metade, e 2 guizos por dentro.
  • Material: borracha natural, com dureza fixada pela norma DIN 53505.

A CBDV a descreve como parecida com a de basquete, só que com guizos por dentro.

Classes B1, B2 e B3

Em competições da IBSA, todo jogador precisa ter uma classificação esportiva válida de B1, B2 ou B3. A IBSA define as três assim:

  • B1: acuidade visual muito baixa e/ou nenhuma percepção de luz.
  • B2: acuidade maior que a da classe B1 ou campo visual menor que 5 graus.
  • B3: a maior acuidade admitida ou campo visual menor que 20 graus.

A classe é definida por um painel de classificadores, com testes de acuidade e de campo visual. No goalball, as três classes jogam juntas, no mesmo time. Quem iguala a disputa é a venda: segundo a IBSA, ela coloca no mesmo nível atletas totalmente cegos e atletas com baixa visão. A CBDV resume a regra em três palavras: "todos jogam vendados".

De onde veio o goalball

O goalball foi inventado em 1946 pelo austríaco Hanz Lorenzen e pelo alemão Sepp Reindle, como parte da reabilitação de veteranos de guerra que tinham ficado cegos. A data e os nomes coincidem na IBSA, no Comitê Paralímpico Internacional (IPC) e na CBDV. Só a grafia muda: a IBSA escreve Hanz, e o IPC, Hans.

Nos Jogos Paralímpicos, o caminho foi este, segundo a IBSA e o IPC:

Ano O que aconteceu
1972 Esporte de demonstração em Heidelberg
1976 Estreia oficial, com medalhas no masculino, em Toronto
1984 Entra a disputa feminina, em Nova York

Algumas páginas brasileiras situam a entrada no programa em 1980. Aqui seguimos a IBSA e o IPC, que coincidem em 1976. Hoje, segundo o IPC, o goalball é praticado de forma competitiva em 112 países.

O goalball no Brasil

Segundo a CBDV, o goalball chegou ao Brasil em 1985, apresentado pelo professor Steven Dubner, do CADEVI, entidade de atendimento a pessoas cegas de São Paulo. No mesmo ano, o professor Mário Sérgio Fontes levou o jogo para a Adevipar, no Paraná, e aconteceu a primeira partida entre duas associações. Dois anos depois, Curitiba recebeu o primeiro campeonato brasileiro. Desde 2011, a modalidade é administrada pela CBDV.

A estreia em Paralimpíadas veio em Atenas 2004, com a seleção feminina, e em Pequim 2008 as duas seleções jogaram, também segundo a CBDV. Daí em diante, o Brasil virou uma das potências do esporte:

Ano Competição Resultado
2012 Paralimpíada de Londres Prata no masculino, a primeira medalha paralímpica do país na modalidade (CBDV, IPC)
2014 Mundial de Espoo, Finlândia Ouro no masculino (CBDV, IPC)
2016 Paralimpíada do Rio Bronze no masculino (CBDV, IPC)
2018 Mundial de Malmö, Suécia Ouro no masculino e bronze no feminino, a primeira medalha das mulheres em Mundiais (CBDV, IPC)
2020 Paralimpíada de Tóquio Ouro no masculino (CBDV, IPC)
2022 Mundial de Matosinhos, Portugal Ouro no masculino, o tricampeonato (CBDV, CPB)
2024 Paralimpíada de Paris Bronze no masculino (CBDV, CPB)
2026 Mundial de Hangzhou, China Bronze no masculino; a seleção feminina parou nas quartas de final (CPB, Agência SP)

O bronze de Paris 2024 foi de André Dantas, Emerson Ernesto, Josemárcio Sousa, Leomon Moreno, Paulo Saturnino e Romário Marques, segundo a lista de medalhistas do CPB. Leomon Moreno é o nome mais conhecido dessa geração: o IPC o aponta como peça-chave dos títulos mundiais de 2014 e 2018.

No Mundial de junho de 2026, em Hangzhou, a seleção masculina perdeu a semifinal para a China e ficou com o bronze ao vencer o Japão por 10 a 6. A feminina caiu diante da Turquia nas quartas e terminou em quinto lugar, segundo o CPB.

Goalball na escola: as Paralimpíadas Escolares

O goalball também é disputado nas Paralimpíadas Escolares. O regulamento da fase nacional de 2025, publicado pelo CPB, mostra como o jogo se ajusta a alunos mais novos:

  • Regras: as da IBSA, e a classe de cada aluno segue a classificação visual da IBSA.
  • Idades: categoria A, de 11 a 14 anos, e categoria B, de 15 a 17 anos, no masculino e no feminino.
  • Equipe: até 9 integrantes, sendo 6 jogadores e até 3 pessoas da comissão técnica.
  • Quadra menor: na categoria A, a quadra tem 6 metros de largura por 18 de comprimento, "com partidas de 8 minutos".
  • Vendas: cada equipe leva os seus óculos de proteção, totalmente vedados, como pedem as regras da IBSA.

Se você é professor ou estudante de educação física, vale ler o regulamento inteiro antes de montar um jogo na escola. E a área acadêmica da CBDV reúne pesquisas sobre a modalidade, de sistemas táticos a testes físicos com atletas da seleção.

O goalball em Portugal

Em Portugal, o goalball está ligado à Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência (FPDD). Pelo regulamento das competições nacionais, de agosto de 2024, a organização cabe à direção da ANDDVIS, mandatada pela FPDD para atribuir os títulos nacionais. As regras de jogo são as homologadas pela IBSA.

As competições oficiais são a Liga Portugal, a Liga II, a Taça de Portugal, a Supertaça e a Taça Nacional, e a época vai de 1 de setembro a 31 de agosto. A grande diferença está em quem pode jogar:

  • Atleta elegível: quem comprova a deficiência visual com atestado multiusos português de pelo menos 60% de incapacidade, com um formulário médico com classe B1, B2 ou B3, ou com classificação da IBSA de B1 a B3.
  • "Atleta não elegível": o atleta português que não cumpre nenhum desses critérios. Para cada dois atletas elegíveis para a seleção nacional, a equipa pode filiar um.
  • Em campo: na Liga Portugal, na Taça de Portugal, na Supertaça e na Taça Nacional, cada equipa precisa ter pelo menos dois atletas elegíveis para a seleção nacional; na Liga II, pelo menos um.

Portugal também recebeu o Mundial de 2022, em Matosinhos, onde a seleção masculina brasileira conquistou o tricampeonato.

Da quadra para o alfabeto braille

No goalball, tudo o que o atleta precisa saber chega pelo som da bola e pelo relevo das linhas. Fora da quadra, a autonomia de uma pessoa cega depende de outras ferramentas que também passam pelo toque e pela audição: a bengala, o piso tátil, os leitores de tela e o braille, que permite ler e escrever pelo toque. Se você quer entender o sistema, o alfabeto braille mostra cada letra, e o guia para aprender braille explica por onde começar. A história do braille no Brasil conta como ele chegou ao país.

Nem todo atleta de goalball lê braille, porque as classes vão da cegueira total à baixa visão, mas para muita gente o alfabeto em relevo é o caminho para ler sem depender de ninguém. O Braillito, nosso app, ensina o alfabeto com lições curtas que se jogam no celular. Não é um esporte nem substitui um professor de braille: é uma forma de praticar as letras um pouco por dia. Se for útil, baixe o app.

Perguntas frequentes

Quem pode jogar goalball?

Em competições da IBSA, atletas com classificação B1, B2 ou B3, em disputas masculinas e femininas separadas. Nas ligas nacionais, cada país define os detalhes: em Portugal, por exemplo, o regulamento admite um número limitado de atletas sem deficiência visual comprovada.

Por que todos os jogadores usam vendas?

Para igualar a disputa entre atletas totalmente cegos e atletas com baixa visão, que jogam no mesmo time. A venda é obrigatória do começo ao fim de cada tempo e também na prorrogação.

Quanto tempo dura uma partida de goalball?

São 24 minutos de jogo, em dois tempos de 12, com intervalo de 5 minutos. A partida pode acabar antes, se uma equipe abrir 10 gols de diferença, ou ir para uma prorrogação de 6 minutos quando é preciso ter um vencedor.

Quanto pesa a bola de goalball?

1.250 g, com tolerância de 50 g, e de 24 a 25 cm de diâmetro. Ela tem dois guizos e oito furos para o som sair.

O Brasil já foi campeão paralímpico de goalball?

Sim. A seleção masculina ganhou o ouro em Tóquio 2020, depois da prata em Londres 2012 e do bronze no Rio 2016. Em Paris 2024, voltou ao pódio com o bronze, e no Mundial ganhou os títulos de 2014, 2018 e 2022.