Baixa visão: o que é, como se define e quais recursos ajudam

Baixa visão é a perda de visão que continua importante mesmo com os melhores óculos ou lentes, mas que ainda deixa algum resíduo visual. No Brasil, o Decreto nº 5.296/2004 a define pela acuidade visual: entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica. Não é cegueira, e há muitos recursos para aproveitar a visão que resta: lupas, mais luz e contraste, letra grande e as funções de acessibilidade do celular.

Em resumo

  • Na lei brasileira, baixa visão é acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica.
  • A OMS usa outra escala, com quatro graus: leve, moderada, grave e cegueira. As duas não medem exatamente a mesma coisa.
  • Os recursos mais comuns ampliam, iluminam e aumentam o contraste: lupas, letra grande, ampliação de tela e leitor de tela.
  • A reabilitação visual ensina a usar esses recursos. A Fundação Dorina Nowill atende de graça e sem encaminhamento; o SUS tem Centros Especializados em Reabilitação.
  • O braille não substitui a letra grande, mas pode ser mais uma ferramenta quando ler com os olhos cansa ou quando a visão muda.

O que é baixa visão

Quem tem baixa visão enxerga, mas enxerga pouco, e os óculos comuns não resolvem. A pessoa pode ter dificuldade para ler, reconhecer rostos, atravessar a rua ou usar o celular, e ainda assim se orientar com a visão que tem. Essa visão que sobra se chama resíduo visual.

A baixa visão não é igual para todo mundo. O Relatório mundial sobre a visão da OMS lembra que a visão tem vários componentes, como a acuidade visual, o contraste e a visão periférica. Uma pessoa pode perder o detalhe e manter o campo visual; outra pode ler bem uma palavra de perto e tropeçar num degrau. Por isso duas pessoas com baixa visão podem precisar de recursos bem diferentes.

Você também pode ouvir o nome visão subnormal. É o termo que a Fundação Dorina Nowill usa para a sua "clínica de visão subnormal". Na prática, as duas expressões se referem à mesma situação.

Como a lei brasileira define baixa visão

A definição legal está no Decreto nº 5.296, de 2 de dezembro de 2004, no artigo 5º. Ao listar o que conta como deficiência visual, o decreto descreve a baixa visão como "acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica".

O mesmo trecho traz outros três casos de deficiência visual:

Situação Critério do decreto
Cegueira Acuidade visual igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica
Baixa visão Acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica
Campo visual reduzido Soma do campo visual dos dois olhos igual ou menor que 60°
Casos combinados Duas ou mais dessas condições ao mesmo tempo

Três detalhes ajudam a ler a tabela:

  • Melhor olho quer dizer que conta o olho que enxerga mais. Se um olho vê bem, é ele que conta.
  • Melhor correção óptica quer dizer que a medida é feita com os melhores óculos ou lentes possíveis para aquela pessoa. Se os óculos resolvem, não é baixa visão.
  • Acuidade em decimal: a visão considerada normal é 1,0 (o 6/6 da OMS). Uma acuidade de 0,3 é cerca de um terço disso; 0,05 é um vigésimo.

Quem mede a acuidade e o campo visual é o oftalmologista. Este texto não trata de benefícios: cada direito tem regras próprias, e quem decide é o órgão responsável.

Os graus de deficiência visual da OMS

A Organização Mundial da Saúde usa uma escala própria, em frações. A referência é o Relatório mundial sobre a visão, publicado em 2019 e apresentado pela OPAS como o primeiro relatório mundial da OMS sobre o tema. Ele explica a fração assim: 6/18 quer dizer que a pessoa lê a 6 metros o que alguém com visão normal leria a 18 metros. A visão normal é 6/6.

Grau (OMS) Acuidade no melhor olho Em decimal, aproximado
Leve Pior que 6/12, igual ou melhor que 6/18 Abaixo de 0,5 até 0,33
Moderada Pior que 6/18, igual ou melhor que 6/60 Abaixo de 0,33 até 0,1
Grave Pior que 6/60, igual ou melhor que 3/60 Abaixo de 0,1 até 0,05
Cegueira Pior que 3/60 Abaixo de 0,05

A coluna em decimal é só a divisão da fração, para comparar com a lei brasileira. Há ainda dois critérios fora da tabela:

  • Visão de perto: a OMS conta como deficiência não conseguir ler letra do tamanho N6 (o tamanho de jornal) a 40 cm.
  • Campo visual: a deficiência grave e a cegueira também são definidas pelo campo visual central, quando ele fica menor que 20 e 10 graus, respectivamente.

Por que a OMS e o decreto não batem

As duas escalas não são intercambiáveis. O decreto mede com a melhor correção óptica. A OMS, desde a revisão de 2010 descrita no mesmo relatório, usa a acuidade que a pessoa apresenta no exame, e não a melhor possível. Assim, a OMS conta também quem enxerga mal por falta de óculos adequados; o relatório fala em erros refrativos não corrigidos.

É por isso que os números globais são tão grandes. Segundo a OPAS, "pelo menos 2,2 bilhões de pessoas têm uma deficiência visual ou cegueira". Esse total inclui a visão de perto e, segundo a mesma nota, pelo menos 1 bilhão de casos que poderiam ter sido evitados ou ainda não foram tratados. Ele não é o número de pessoas com baixa visão no sentido da lei brasileira.

Recursos que ajudam no dia a dia

O relatório da OMS lista vários recursos de reabilitação visual: ampliadores ópticos, mudanças no ambiente (como luz melhor), leitura em braille, leitores de tela e treino em orientação e mobilidade com a bengala branca. E avisa que esses recursos precisam se ajustar às necessidades e prioridades de cada pessoa. Ninguém usa tudo. Veja os grupos principais:

Necessidade Recurso Para quê
Ver maior Lupas de mão ou de apoio; ampliadores eletrônicos Ler rótulos, cartas, preços, remédios
Ver melhor Luz direcionada, menos reflexo, cores que contrastam Cozinhar, achar objetos, ver degraus
Ler com menos esforço Letra grande, livros em fonte ampliada, audiolivros Leitura longa sem cansar a vista
Usar o celular e o computador Ampliação de tela, fonte maior, alto contraste, leitor de tela Mensagens, banco, trabalho, estudo
Andar com segurança Orientação e mobilidade, bengala Rua, transporte, lugares novos

Ampliar

As lupas são o recurso mais conhecido, mas não existe uma lupa boa para tudo. A ampliação certa para ler um remédio pode ser grande demais para ler um livro. Os ampliadores eletrônicos usam uma câmera e uma tela; deixam mudar o tamanho, as cores e o contraste. A escolha e o treino costumam ser feitos num serviço de reabilitação, não numa loja.

Luz e contraste

Muitas vezes, a mudança mais barata é na casa. Uma luz bem posicionada sobre a mesa de leitura, menos brilho nas superfícies e cores que contrastam ajudam muito: um prato claro sobre uma toalha escura, uma faixa de cor na borda dos degraus, um interruptor que se destaca da parede. É a mesma lógica do piso tátil, que tem cor contrastante justamente para quem tem baixa visão.

Letra grande e áudio

A Fundação Dorina Nowill produz e distribui de graça livros em braille, falados e digitais acessíveis. Contamos onde encontrar esses livros, e também os de fonte ampliada, em livros em braille.

Celular e computador

O celular e o computador já trazem, nas configurações de acessibilidade, recursos que servem para quem tem baixa visão: fonte maior, zoom ou ampliação da tela, alto contraste, inversão de cores e leitor de tela, que lê em voz alta o que aparece. A câmera do celular também funciona como lupa improvisada. Vale gastar uma tarde testando cada opção, de preferência com alguém do serviço de reabilitação.

Onde buscar reabilitação visual no Brasil

A reabilitação visual ensina a usar o resíduo visual e os recursos acima, e também a fazer as tarefas do dia a dia de outro jeito. Três caminhos com informação oficial:

Fundação Dorina Nowill para Cegos

A Fundação Dorina Nowill, em São Paulo, oferece serviços para pessoas cegas e com baixa visão e suas famílias: educação especial, reabilitação, clínica de visão subnormal e empregabilidade. Sobre a habilitação e reabilitação, a fundação informa: "Todos os atendimentos oferecidos pela Fundação são gratuitos e não necessitam de encaminhamento".

O atendimento começa pelo serviço social. Depois, a oftalmologia avalia a condição visual. Quem tem resíduo visual segue para a ortóptica, que faz o "treino de recursos ópticos e melhor utilização do resíduo visual". A equipe inclui psicologia, terapia ocupacional, fisioterapia e orientação e mobilidade, sem limite de idade. Desde a pandemia, a fundação também atende de forma remota, num modelo híbrido que chega a outros estados.

Instituto Benjamin Constant

O Instituto Benjamin Constant (IBC), no Rio de Janeiro, é o centro de referência nacional na área da deficiência visual. Segundo a sua carta de serviços, o atendimento oftalmológico se estende à população em geral, mas é limitado, e o instituto não atende urgência. Atenção: "O IBC não possui convênio com o SUS". O instituto tem uma Coordenação de Baixa Visão, com telefone e e-mail na mesma página, e uma biblioteca com equipamentos de leitura ampliada para usuários com baixa visão.

O SUS

A Portaria nº 793/2012 do Ministério da Saúde criou a Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência no SUS. Nessa rede, a atenção básica fica nas Unidades Básicas de Saúde, e a reabilitação especializada, incluindo a visual, fica em serviços habilitados e nos Centros Especializados em Reabilitação (CER). A oferta muda de cidade para cidade. Pergunte na sua UBS como funciona o encaminhamento na sua região.

Letra grande, áudio ou braille?

Não há uma resposta só. Para muita gente com baixa visão, a letra grande e a ampliação resolvem quase tudo. O áudio é ótimo para textos longos. O braille aparece na lista de recursos da OMS como mais uma opção, não como regra.

Na nossa leitura, e dizemos isso sabendo que fazemos um app de braille, há três situações em que vale conhecer o braille:

  1. Quando ler com os olhos cansa rápido. Algumas pessoas leem bem com lupa por alguns minutos e depois precisam parar. O braille não depende de luz nem do tamanho da letra.
  2. Quando a visão muda. Se a pessoa ou a equipe que a acompanha espera mudanças na visão, aprender braille com calma, ainda enxergando, pode dar mais tranquilidade.
  3. Para coisas pequenas da casa. Etiquetas em potes, remédios, roupas e documentos podem ficar legíveis pelo tato, sem procurar a lupa.

Essa decisão é da pessoa, de preferência conversada com o serviço de reabilitação. E não precisa ser uma coisa ou outra: dá para usar letra grande no celular e braille nas etiquetas da cozinha.

Braille para quem ainda enxerga um pouco

O braille é um alfabeto de pontos em relevo, organizado numa cela de seis pontos. Explicamos como ele funciona em o que é braille. Quem ainda enxerga um pouco costuma aprender as letras primeiro com os olhos, como contamos em como aprender braille, e depois passa para os dedos. A palavra "luz", por exemplo, se escreve ⠇⠥⠵. Você pode ver as outras letras no alfabeto braille.

Nem toda pessoa com baixa visão vai querer ou precisar ler braille; para quem quiser experimentar, o começo é conhecer as letras. O Braillito, nosso app, ensina o alfabeto com lições curtas que se jogam no celular. Não é um recurso de baixa visão nem substitui a reabilitação visual: é uma forma de praticar as letras um pouco a cada dia. Se for útil, baixe o app.

Perguntas frequentes

Baixa visão é deficiência visual?

Sim. No Decreto nº 5.296/2004, a deficiência visual inclui a cegueira, a baixa visão e o campo visual reduzido. A OMS fala em deficiência visual, dividida em graus.

Qual a diferença entre baixa visão e cegueira?

Na lei brasileira, a diferença está na acuidade visual do melhor olho, com a melhor correção óptica: baixa visão vai de 0,3 a 0,05; cegueira é 0,05 ou menos. Na prática, a pessoa com baixa visão ainda usa a visão para se orientar e, muitas vezes, para ler com ajuda.

Óculos resolvem a baixa visão?

Não sozinhos. Pela definição do decreto, a baixa visão já é medida com a melhor correção óptica, ou seja, com os melhores óculos possíveis. Outros recursos, como lupas, ampliadores, luz e contraste, ajudam a aproveitar a visão que resta.

Onde fazer reabilitação visual?

A Fundação Dorina Nowill, em São Paulo, atende de graça e sem encaminhamento, também de forma remota. O Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, tem uma Coordenação de Baixa Visão. No SUS, a reabilitação visual faz parte da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência; pergunte na sua UBS.

Pessoa com baixa visão precisa aprender braille?

Não. Muitas pessoas com baixa visão leem com letra grande, ampliação e áudio. O braille é uma opção a mais, útil para quem cansa ao ler com os olhos ou para quem espera mudanças na visão.