Celular para cegos: como usar e aplicativos que ajudam
Um celular para cegos, na maioria das vezes, é um smartphone comum com o leitor de tela ligado. O iPhone já vem com o VoiceOver e os celulares Android, com o TalkBack: os dois falam o que está na tela e mudam os gestos, para que a pessoa use o aparelho sem ver. Com eles dá para ditar mensagens, escrever em braille na própria tela, ligar uma linha braille e usar aplicativos que leem textos e descrevem o ambiente.
Este guia é para quem perdeu a visão e para a família que vai ajudar nos primeiros dias.
Em resumo
- O leitor de tela já vem no celular: VoiceOver no iPhone e TalkBack no Android. Não é preciso comprar um aparelho especial.
- Os dois têm um tutorial que ensina os gestos com a própria voz do celular. Comece por ele.
- Para escrever, há três caminhos: o teclado com o leitor de tela, o ditado por voz e o braille na tela, com seis dedos.
- Uma linha braille se conecta ao iPhone por Bluetooth e ao Android por Bluetooth ou USB.
- Aplicativos como a Lupa do iPhone, o Lookout do Google e o Be My Eyes leem textos e descrevem o que a câmera vê. Cada um tem limites de idioma e de uso.
iPhone ou Android: o que muda
Os dois sistemas fazem o mesmo, com nomes e caminhos diferentes. A melhor escolha costuma ser o sistema que a pessoa ou a família já conhece, porque é quem vai ajudar nos primeiros dias.
No Android há um detalhe: cada fabricante muda um pouco os menus. O próprio Google avisa que o jeito de ativar o TalkBack varia: "Depende do smartphone e da versão do Android."
| O que você quer | iPhone (VoiceOver) | Android (TalkBack) |
|---|---|---|
| Ligar o leitor de tela | Ajustes › Acessibilidade › VoiceOver, ou pedir à Siri | Configurações › Acessibilidade › TalkBack › Usar o TalkBack, ou os dois botões de volume |
| Aprender os gestos | Tutorial do VoiceOver e Treino do VoiceOver | Tutorial do TalkBack, que abre sozinho na primeira vez |
| Ditar um texto | Tocar duas vezes com dois dedos no teclado | Tocar no microfone no alto do teclado Gboard |
| Escrever em braille na tela | Entrada de Braille via Tela | Teclado em braille do TalkBack |
| Ligar uma linha braille | Por Bluetooth | Por Bluetooth ou USB, com o TalkBack 13.0 ou mais recente |
VoiceOver no iPhone: o primeiro dia
A Apple descreve o VoiceOver como "um leitor de tela baseado em gestos". Ao tocar ou arrastar o dedo sobre a tela, ele fala o nome do item: ícones, botões, textos.
Para ligar, segundo a página da Apple:
- Acesse Ajustes › Acessibilidade › VoiceOver e ative a opção.
- Ou peça à Siri algo como "Ative o VoiceOver".
- Se você configurou antes, também dá para usar a Central de Controle ou o Atalho de Acessibilidade.
Antes de ligar, saiba: com o VoiceOver ativo, os gestos mudam. Um toque passa a selecionar e falar o item; para abri-lo, é preciso tocar duas vezes. Por isso, ligue o VoiceOver já sabendo como desligá-lo: está no post sobre leitor de tela.
Para aprender, a Apple traz duas ferramentas no próprio aparelho:
- O Tutorial do VoiceOver: com o VoiceOver ativo, acesse Ajustes › Acessibilidade › VoiceOver e toque em Tutorial do VoiceOver.
- O Treino do VoiceOver, no mesmo menu: uma área para testar gestos e ouvir o que cada um faz, sem mexer em nada do iPhone.
Uma dica da Apple para quem está começando: se um gesto não funcionar, tente um movimento mais rápido, sobretudo no toque duplo e ao passar o dedo. Nos gestos com vários dedos, deixe um pouco de espaço entre eles.
A tabela completa de gestos está na lista oficial da Apple. Não tente decorar tudo no primeiro dia: tocar, passar o dedo para os lados e tocar duas vezes já resolvem quase tudo.
TalkBack no Android: o primeiro dia
O Google define o TalkBack como o leitor de tela incluído no Android. "Ele permite que você controle o dispositivo sem usar os olhos."
Para ligar, segundo a ajuda do Google:
- Num celular novo, durante a configuração, aperte os dois botões de volume por alguns segundos. Depois, esses botões continuam servindo de atalho para ligar e desligar o TalkBack.
- Num celular já configurado, abra Configurações › Acessibilidade › TalkBack e selecione Usar o TalkBack.
- Com o Google Assistente configurado, diga: "Ativa o TalkBack".
Para aprender, o tutorial do TalkBack abre sozinho na primeira vez que o leitor é ativado. Para voltar a ele, vá a Configurações do TalkBack › Tutorial e ajuda › Tutorial (Google).
Os gestos básicos são parecidos com os do iPhone. Estes ajudam desde o primeiro dia, segundo a lista do Google:
| Ação | Gesto |
|---|---|
| Voltar | Deslizar para baixo e depois para a esquerda, num só movimento |
| Ir para a tela inicial | Deslizar para cima e depois para a esquerda |
| Pausar ou retomar a fala | Tocar com dois dedos |
| Atender ou encerrar uma chamada | Tocar duas vezes com dois dedos |
| Praticar gestos | Tocar com quatro dedos |
Os três últimos usam vários dedos, e nem todo celular aceita. Para saber se o seu aceita, toque na tela com três dedos com o TalkBack ligado: se o menu do TalkBack abrir, ele aceita.
Escrever sem ver: teclado, voz e braille
Com o teclado da tela
No iPhone, o VoiceOver tem três estilos de digitação (Apple):
- Digitação padrão: passe o dedo para a esquerda ou para a direita até a tecla e toque duas vezes para digitar.
- Digitação profissional: toque numa tecla e levante o dedo para digitar. Se tocou na tecla errada, deslize até a certa antes de soltar.
- Toque Direto: o VoiceOver se desliga só no teclado, para você digitar como se ele estivesse desligado.
Com a voz
- No iPhone, com o VoiceOver ativo, "toque duas vezes com dois dedos no teclado" para começar o ditado, e repita o gesto para parar (Apple).
- No Android, com o teclado Gboard, toque no Microfone, no alto do teclado. Quando aparecer a mensagem "Fale agora", diga o que quer escrever (Google).
Em braille, com seis dedos
Quem sabe braille pode escrever direto na tela, sem nenhum aparelho a mais. A tela vira um teclado de seis pontos: cada dedo é um ponto da cela, e os pontos de uma letra se tocam juntos.
- iPhone: Entrada de Braille via Tela. Com o VoiceOver ativo, comece com um gesto (um dedo de cada mão nas bordas de cima e de baixo da tela, e dois toques) ou pelo rotor, dentro de um campo de texto. Há o modo mesa, com o iPhone deitado à sua frente, e o modo tela para frente, com a tela de costas para você e os dedos envolvendo as laterais (Apple).
- Android: teclado em braille do TalkBack. Abra Configurações do TalkBack › Teclado em braille › Configurar teclado em braille e, depois, escolha esse teclado em "Alterar o método de entrada". Um detalhe da página do Google: a ampliação precisa estar desativada. Os idiomas se escolhem em Teclado em braille › Idiomas (Google).
Os gestos de espaço, apagar e nova linha, e dicas para ganhar velocidade, estão no post sobre teclado braille.
Ligar uma linha braille
Uma linha braille mostra em braille, com pinos que sobem e descem, o texto que está na tela. Lá estão os tamanhos, os preços e o que perguntar antes de comprar. Aqui, só a conexão.
No iPhone, a conexão é por Bluetooth (Apple):
- Ligue a linha braille.
- No iPhone, acesse Ajustes › Bluetooth, ative o Bluetooth e escolha a linha.
- Depois, em Ajustes › Acessibilidade › VoiceOver › Braille, escolha a linha.
Nos mesmos ajustes você escolhe a tabela de braille: seis ou oito pontos, abreviado ou não abreviado. A Apple mantém uma lista de linhas braille compatíveis; vale consultá-la antes de comprar.
No Android, o TalkBack se conecta à linha por Bluetooth ou USB, sem aplicativo extra: "o BrailleBack não é necessário", diz o Google.
- Confira se o seu TalkBack é a versão 13.0 ou mais recente.
- Nas Configurações da linha braille do TalkBack, confirme que Usar a linha braille está ativado.
- Conecte a linha. Algumas pedem que você ative nela o Bluetooth e o modo de pareamento; o manual do fabricante explica como.
O português está entre os idiomas de braille do TalkBack.
Aplicativos para cegos e pessoas com baixa visão
Quem procura um aplicativo para deficientes visuais encontra muitas opções. Os três abaixo vêm de uma empresa ou de uma organização e têm página oficial. Não estão em ordem de preferência. Antes de depender de qualquer um, teste-o em casa, numa situação sem pressa.
Lupa, no iPhone
Já vem instalada no iPhone. No Modo de Detecção, ela lê em voz alta o texto para o qual a câmera aponta. Com Apontar e Falar, você aponta o dedo para um texto e o iPhone lê aquele trecho; a Apple dá como exemplo os botões de eletrodomésticos e os caixas eletrônicos (Apple).
A mesma página traz dois avisos. Esses recursos "não estão disponíveis em todos os idiomas". E: "não dependa do Modo de Detecção em situações de alto risco ou emergência".
Lookout, no Android
É do Google e se define como "um app Android para pessoas cegas ou com baixa visão". Usa a câmera para ler textos e páginas inteiras, descrever imagens e, no modo Explorar, ainda em versão Beta, dizer o que há ao redor. Fala português do Brasil e pede Android 6.0 ou mais recente. Para abri-lo, dá para dizer "Ok Google, iniciar o Lookout" (Google).
Um limite importante para quem está no Brasil: o modo Moeda está "disponível apenas para dólar americano, euro e rúpias indianas". Ou seja, ele ainda não reconhece as cédulas de real.
Be My Eyes
Liga pessoas cegas ou com baixa visão, por vídeo, a voluntários e a ferramentas de inteligência artificial. Segundo o site oficial, é gratuito e está em mais de 150 países, e os voluntários só ouvem a sua voz e veem o que a sua câmera mostra. Confira no próprio app o idioma das chamadas.
Celular de teclas: para quem não quer tela de toque
Nem todo mundo quer aprender gestos numa tela lisa. Para quem prefere sentir os botões, existem celulares simples, de teclas físicas, e alguns falam os menus, os números digitados e o nome de quem está ligando.
Antes de comprar um, vale conferir:
- Se ele fala em português os menus, as mensagens e o nome de quem liga, e não só os números.
- Se funciona na rede da sua operadora. Pergunte à operadora antes.
- Se as teclas se distinguem bem pelo tato, com espaço entre elas.
- O que ele não faz. Um celular simples costuma não rodar aplicativos como os deste post.
Também dá para misturar os dois mundos: um smartphone com leitor de tela e um teclado físico conectado. No Android, com um teclado externo, as teclas Ação + Alt + T ligam e desligam o TalkBack (Google).
Para a família: os primeiros dias
Quem perde a visão adulto muitas vezes já usava o celular e precisa reaprender. Num projeto do Google com a Fundação Dorina Nowill, Cláudio Cardozo, que tinha perdido a visão, contou que precisou reaprender tudo "de uma hora para outra" (Google). Algumas ideias para esses primeiros dias:
- Façam o tutorial juntos, com calma. A voz do celular ensina; a família ajuda mais quando não pega o aparelho da mão.
- Não mude ícones de lugar sem avisar. Quem usa leitor de tela aprende onde as coisas ficam.
- Configure e ensine o atalho de ligar e desligar o leitor: os botões de volume no Android e o Atalho de Acessibilidade no iPhone.
- Comecem por uma tarefa que a pessoa quer fazer, como atender uma ligação ou mandar uma mensagem de voz. O resto vem depois.
- Procurem apoio profissional. Na Fundação Dorina Nowill, em São Paulo, "Todos os atendimentos oferecidos pela Fundação são gratuitos e não necessitam de encaminhamento". Desde a pandemia, a habilitação e a reabilitação também são feitas a distância, para outros estados. Pergunte que apoio há para o uso do celular.
Se a pessoa ainda enxerga um pouco, veja também o post sobre baixa visão.
Escrever braille na tela começa pelo alfabeto
Para escrever com a Entrada de Braille via Tela ou com o teclado em braille do TalkBack, não basta saber onde pôr os dedos: é preciso saber que pontos formam cada letra. O a é só o ponto 1 (⠁): um toque com um dedo. O b são os pontos 1 e 2 (⠃). O c são os pontos 1 e 4 (⠉): dois dedos ao mesmo tempo, um de cada mão.
A cela tem seis pontos, em duas colunas de três. O alfabeto braille mostra os pontos de cada letra, e a página da cela braille explica como eles se numeram. Com o alfabeto na memória, a tela vira um teclado; sem ele, vira um quebra-cabeça.
Dá para usar o celular só com a voz, mas quem quiser escrever em braille na tela ou ler numa linha braille precisa conhecer os pontos de cada letra. O Braillito, nosso app, ensina o alfabeto com lições curtas que se jogam no celular. Não é um curso de uso do celular nem substitui a reabilitação: é um jeito de praticar as letras todos os dias. Se for útil, baixe o app.
Perguntas frequentes
Qual é o melhor celular para cegos?
Não há um modelo único. Qualquer iPhone com VoiceOver ou celular Android com TalkBack pode ser usado por uma pessoa cega. Para quem não quer tela de toque, há celulares simples de teclas: confira se falam os menus em português.
Como uma pessoa cega manda mensagem no celular?
Com o leitor de tela ligado: digitando no teclado da tela, ditando por voz ou escrevendo em braille com seis dedos na tela ou numa linha braille.
Existe aplicativo que reconhece dinheiro brasileiro?
O modo Moeda do Lookout, do Google, só reconhece dólar americano, euro e rúpias indianas, segundo a página oficial. Antes de confiar em qualquer aplicativo para conferir cédulas, veja se a página oficial dele cita o real.
Dá para usar o celular sem tocar na tela?
Em parte. A Siri e o Google Assistente ligam o leitor de tela com um pedido de voz, e o ditado escreve mensagens. Quem prefere botões pode escolher um celular simples de teclas.
Onde aprender a usar o celular sendo cego?
Comece pelo tutorial que já vem no aparelho: o Tutorial do VoiceOver no iPhone e o tutorial do TalkBack no Android. Para apoio de profissionais, a Fundação Dorina Nowill oferece habilitação e reabilitação gratuitas, também a distância.
