Dorina Nowill: quem foi e o que fez pelo braille no Brasil

Dorina Nowill (1919–2010) foi uma educadora paulistana que ficou cega aos 17 anos e dedicou a vida a garantir que pessoas cegas pudessem estudar. Em 1946, criou a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, hoje Fundação Dorina Nowill para Cegos, que imprime livros em braille até hoje. Também dirigiu a campanha nacional de educação de cegos do Ministério da Educação e presidiu o Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos.

A seguir: a vida dela em ordem, uma ficha e uma linha do tempo para trabalhos escolares, e o nome dela escrito em braille. As datas vêm da Fundação Dorina Nowill e do Senado Federal, conferidas em pelo menos duas fontes e consultadas em 1º de novembro de 2026.

Em resumo

  • Nasceu em São Paulo em 28 de maio de 1919 e ficou cega aos 17 anos. Foi a primeira aluna cega de um curso regular da Escola Normal Caetano de Campos.
  • Em 11 de março de 1946, criou a Fundação para o Livro do Cego no Brasil. Em 1948, a fundação recebeu dos Estados Unidos uma imprensa braille completa.
  • De 1961 a 1973, dirigiu a Campanha Nacional de Educação de Cegos do MEC, que criou serviços de educação de cegos em todos os estados.
  • Em 1979, foi eleita presidente do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos, hoje União Mundial de Cegos.
  • Morreu em 29 de agosto de 2010, aos 91 anos. Pela Lei nº 14.796/2024, seu nome está no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.

Ficha rápida

Item Dado
Nome completo Dorina de Gouvêa Nowill
Nascimento 28 de maio de 1919, em São Paulo
Morte 29 de agosto de 2010, aos 91 anos
Profissão Educadora, formada pela Escola Normal Caetano de Campos
Estudos no exterior Teachers College da Universidade Columbia, Nova York, a partir de 1946
Fundou Fundação para o Livro do Cego no Brasil (1946), hoje Fundação Dorina Nowill para Cegos
No governo Diretora da Campanha Nacional de Educação de Cegos, do MEC (1961–1973)
No mundo Presidente do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos, eleita em 1979
Livro ...E eu venci assim mesmo (1996)
Homenagem Heroína da Pátria (Lei nº 14.796/2024)

Infância e a perda da visão

Dorina de Gouvêa Nowill nasceu em São Paulo em 28 de maio de 1919 (Fundação Dorina Nowill; Agência Senado). Aos 17 anos, ficou cega por causa de uma doença que não foi diagnosticada, segundo a fundação. A perda foi repentina, como registra o relatório do centenário publicado pela fundação em 2019. Ela conviveu com a cegueira por 74 anos.

O braille entrou cedo na vida dela. Segundo um artigo acadêmico de Cardoso e Martínez, publicado em 2023 na revista Cadernos de História da Educação, da Universidade Federal de Uberlândia, Dorina aprendeu o sistema no Instituto de Cegos Padre Chico (leia o artigo). O primeiro livro que ela leu em braille foi a autobiografia de Helen Keller, numa edição em francês. Na mesma época, ganhou a sua primeira reglete, a régua usada para escrever braille à mão.

A primeira aluna cega da Caetano de Campos

Dorina quis continuar estudando junto com colegas que enxergavam. Nos anos 1940, ela foi a "primeira aluna cega a frequentar um curso regular na Escola Normal Caetano de Campos", em São Paulo (Fundação Dorina Nowill). O curso normal era o que formava professores (Agência Senado). A Assembleia Legislativa de São Paulo e o Google contam a mesma história.

Depois, ela conseguiu que outra menina cega fosse aceita num curso regular da mesma escola. Mais tarde, ajudou a criar ali um curso para especializar professores no ensino de pessoas cegas (relatório anual de 2018 da fundação; Cardoso e Martínez). Segundo o artigo, ela coordenou esse curso por anos e dava aulas de braille.

A ideia que guiou esse trabalho aparece numa frase dela citada no artigo: "nós só damos vivência ao cego se ele puder estudar nas mesmas escolas". Era a defesa de que crianças cegas estudassem nas escolas comuns, com o braille como ferramenta.

A Fundação para o Livro do Cego no Brasil

Para estudar, Dorina precisava de livros, e havia muito poucos em braille. Ela organizou um grupo de mulheres voluntárias para transcrever livros para o braille, à mão (relatório de 2019 da fundação). Segundo Cardoso e Martínez, as primeiras cópias foram feitas nas instalações da Cruz Vermelha, com voluntárias e alunas da Caetano de Campos, e formaram o primeiro acervo da nova instituição.

Em 11 de março de 1946, começou a funcionar a Fundação para o Livro do Cego no Brasil (Fundação Dorina Nowill; Assembleia Legislativa de São Paulo). O artigo da UFU registra que a primeira presidente foi Adelaide Reis de Magalhães. Dorina assumiu a presidência em 1951 (relatório anual de 2018; Cardoso e Martínez). A instituição mudou de nome depois e hoje se chama Fundação Dorina Nowill para Cegos.

Nova York e a imprensa braille de 1948

Em 1946, Dorina foi aos Estados Unidos estudar educação de cegos no Teachers College da Universidade Columbia, em Nova York (Fundação Dorina Nowill; parecer do Senado). Lá, ela se reuniu com a diretoria da Fundação Kellogg e expôs o problema da falta de livros em braille no Brasil.

O resultado veio em 1948: a fundação brasileira recebeu da Fundação Kellogg e da American Foundation for Overseas Blind "uma imprensa braille completa", com máquinas, papel e outros materiais (Fundação Dorina Nowill; Cardoso e Martínez). O Google, no doodle do centenário, a descreve como a primeira grande imprensa braille do país.

Uma imprensa braille produz páginas com pontos em relevo em grande quantidade. Era o oposto do trabalho à mão das voluntárias: em vez de uma cópia por vez, muitas cópias do mesmo livro. Segundo Cardoso e Martínez, os livros produzidos ali atendiam o Brasil e outros países de língua portuguesa. Hoje esse trabalho é feito com impressoras braille de grande porte.

Em 1953, Helen Keller visitou o Brasil como convidada oficial do governo e, com o apoio de Dorina, fez palestras para empresários e universitários (Fundação Dorina Nowill). Segundo o artigo da UFU, a imprensa da época já chamava Dorina de "Helen Keller brasileira".

Na educação pública: de São Paulo ao MEC

Dorina também trabalhou para mudar a lei. Em 1953, o estado de São Paulo garantiu por lei o direito das pessoas cegas à educação, com a criação de classes braille nas escolas (Lei estadual nº 2.287/1953), e Dorina colaborou na elaboração dessa lei (parecer do Senado; Cardoso e Martínez).

De 1961 a 1973, a convite do presidente Jânio Quadros, Dorina dirigiu a Campanha Nacional de Educação de Cegos, do Ministério da Educação e Cultura (MEC). Na gestão dela, foram criados serviços de educação de cegos em todas as unidades da Federação (Fundação Dorina Nowill; parecer do Senado; Cardoso e Martínez). Segundo o relatório anual de 2018 da fundação, foi o primeiro órgão nacional voltado a promover a educação e a reabilitação nessa área.

No mundo: o Conselho Mundial, a OIT e a ONU

Em 1979, Dorina foi eleita presidente do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos, hoje União Mundial de Cegos (Google Doodles; Cardoso e Martínez; Fundação Dorina Nowill). Segundo o artigo da UFU, ela foi a primeira mulher a presidir o conselho e, nessa função, visitou 27 países.

Na Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra, ela conseguiu que a Recomendação 99, sobre a reabilitação profissional das pessoas com deficiência, fosse discutida. Mais tarde, a conferência da OIT aprovou a Convenção 159 e a Recomendação 168, que pedem aos países programas de reabilitação, treinamento e emprego para pessoas com deficiência. O governo, os empresários e os trabalhadores brasileiros votaram a favor (Fundação Dorina Nowill; Agência Senado).

Dorina também discursou na Assembleia Geral das Nações Unidas (Google Doodles; Agência Senado).

Morte e homenagens

Dorina Nowill morreu em 29 de agosto de 2010, aos 91 anos (Fundação Dorina Nowill; Agência Senado). Em 1996, ela tinha contado a própria história no livro ...E eu venci assim mesmo. A página da fundação traz uma frase dela: "Vencer na vida é manter-se de pé quando tudo parece estar abalado".

As principais homenagens:

  • Comenda Dorina Gouveia Nowill. O Senado Federal criou a comenda pela Resolução nº 34, de 2013, para homenagear quem contribui para a defesa das pessoas com deficiência no Brasil.
  • Doodle do Google. Em 28 de maio de 2019, centenário do nascimento, o Google homenageou Dorina na página inicial (Google Doodles).
  • Documentário. Dorina: olhar para o mundo, dirigido por Lina Chamie, de 2016 (parecer do Senado).
  • Heroína da Pátria. A Lei nº 14.796, de 5 de janeiro de 2024, inscreveu o nome de Dorina de Gouvêa Nowill no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. A lei nasceu do projeto PL 3903/2021, da senadora Mara Gabrilli (Senado Federal).

A Fundação Dorina Nowill hoje

A Fundação Dorina Nowill para Cegos fica em São Paulo e completa 80 anos em 2026 (quem somos; relatório de atividades 2026). É uma organização sem fins lucrativos que produz e distribui gratuitamente livros em braille, falados e digitais acessíveis, para pessoas, escolas, bibliotecas e organizações de todo o Brasil. Também oferece, sem custo, serviços de educação especial, reabilitação, clínica de visão subnormal e empregabilidade para pessoas cegas e com baixa visão e suas famílias.

Segundo a fundação, ao longo da sua história ela produziu mais de 6 mil títulos, imprimiu 2 milhões de volumes em braille e atendeu mais de 38 mil pessoas nos seus serviços (quem somos). A Imprensa Braille da fundação é, nas palavras dela, "uma das maiores do mundo em capacidade produtiva" (Fundação Dorina Nowill).

Para quem procura livros, a fundação mantém a Dorinateca, uma biblioteca digital com obras em braille para impressão e em outros formatos acessíveis: veja livros em braille. Para pesquisar a vida de Dorina, o Centro de Memória Dorina Nowill se apresenta como o "primeiro museu brasileiro a considerar a cultura da deficiência visual como patrimônio histórico".

Linha do tempo

Ano O que aconteceu
1919 Nasce em São Paulo, em 28 de maio
Aos 17 anos Fica cega
Anos 1940 Primeira aluna cega de um curso regular da Escola Normal Caetano de Campos
1946 Cria a Fundação para o Livro do Cego no Brasil (11 de março) e vai estudar em Nova York
1948 A fundação recebe uma imprensa braille completa
1951 Assume a presidência da fundação
1953 Lei paulista cria classes braille nas escolas; Helen Keller visita o Brasil
1961–1973 Dirige a Campanha Nacional de Educação de Cegos, do MEC
1979 É eleita presidente do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos
1996 Publica ...E eu venci assim mesmo
2010 Morre em 29 de agosto, aos 91 anos
2013 O Senado cria a Comenda Dorina Gouveia Nowill
2019 Centenário, com doodle do Google
2024 A Lei nº 14.796 a inscreve no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria
2026 A fundação completa 80 anos

Antes da imprensa, o alfabeto

Tudo o que Dorina construiu começou com seis pontos. O braille, criado na França por Louis Braille e trazido ao Brasil no século XIX (o braille no Brasil), representa cada letra numa cela de até seis pontos em relevo, em duas colunas de três. O nome dela se escreve assim: ⠨⠙⠕⠗⠊⠝⠁: o sinal de maiúscula e as seis letras.

Letra Pontos Cela
Maiúscula 4 e 6 ⠨
D 1, 4 e 5 ⠙
O 1, 3 e 5 ⠕
R 1, 2, 3 e 5 ⠗
I 2 e 4 ⠊
N 1, 3, 4 e 5 ⠝
A 1 ⠁

Para ver outro nome, escreva no tradutor braille e compare com o alfabeto braille.

Quem faz um trabalho sobre Dorina quase sempre enxerga, e aprender as letras não transforma ninguém em leitor de braille pelo tato, mas ajuda a entender o sistema que ela passou a vida defendendo. O Braillito, nosso app, ensina o alfabeto com lições curtas que se jogam no celular. Não é um curso de educação especial nem substitui o professor especializado ou os serviços de instituições como a Fundação Dorina: é uma forma de praticar as letras um pouco a cada dia. Se for útil, baixe o app.

Perguntas frequentes

Quem foi Dorina Nowill?

Uma educadora brasileira, nascida em São Paulo em 1919, que ficou cega aos 17 anos e dedicou a vida à educação de pessoas cegas. Criou em 1946 a fundação que hoje leva seu nome e dirigiu, de 1961 a 1973, a Campanha Nacional de Educação de Cegos do MEC.

O que Dorina Nowill fez pelo braille?

Organizou voluntárias para transcrever livros para o braille, criou a Fundação para o Livro do Cego no Brasil e conseguiu, em 1948, uma imprensa braille completa para produzir livros em grande quantidade. Também ajudou a formar professores para ensinar crianças cegas.

Como Dorina Nowill ficou cega?

Ficou cega aos 17 anos por causa de uma doença que não foi diagnosticada, segundo a Fundação Dorina Nowill.

Quando Dorina Nowill morreu?

Em 29 de agosto de 2010, aos 91 anos.

O que é a Fundação Dorina Nowill para Cegos?

Uma organização sem fins lucrativos de São Paulo, criada em 1946, que produz e distribui gratuitamente livros em braille, falados e digitais acessíveis, e oferece serviços gratuitos de educação especial, reabilitação e empregabilidade para pessoas cegas e com baixa visão.