Helen Keller e o braille: como ela lia e escrevia
Sim, Helen Keller lia braille, e mais de um. Nos Estados Unidos da época dela, vários códigos de pontos disputavam as escolas, e ela aprendeu todos. "Leio todos os sistemas", escreveu em 1909, numa carta que pesou na escolha do código das escolas americanas. Segundo a American Foundation for the Blind (AFB), ela preparava seus manuscritos numa máquina de escrever braille e depois os passava a limpo numa máquina comum.
A seguir: como ela aprendeu a ler, que braille usava, a carta na "guerra dos pontos" e a visita ao Brasil. Os fatos e as citações vêm da biografia publicada pela AFB e da história da guerra dos pontos.
Em resumo
- Helen Keller nasceu em Tuscumbia, no Alabama, em 27 de junho de 1880. Uma doença a deixou surda e cega aos 19 meses.
- A professora Anne Sullivan chegou em 3 de março de 1887 e lhe ensinou as palavras soletrando-as na palma da mão.
- Ela lia vários códigos em relevo: "leio todos os sistemas", escreveu em 1909.
- Escrevia os livros numa máquina de escrever braille e depois os passava para uma máquina comum.
- Em 1903 saiu a autobiografia The Story of My Life, publicada em português como A história da minha vida.
- Em 1904 formou-se no Radcliffe College: foi a primeira pessoa surdocega a obter esse diploma.
- Em 1953 visitou o Brasil como convidada oficial do governo.
- Morreu em 1º de junho de 1968, poucas semanas antes de completar 88 anos.
Como ela aprendeu a linguagem
A AFB conta assim. Anne Sullivan, de 20 anos, formada pela Perkins School for the Blind, chegou a Tuscumbia em 3 de março de 1887, data que Helen Keller diria ter mudado sua vida. Um mês depois, junto à bomba d'água, Anne Sullivan pôs uma das mãos de Helen sob a água e soletrou "w-a-t-e-r" na outra. De repente, os sinais ganharam sentido na cabeça da menina (biografia da AFB, em inglês).
Era o alfabeto manual: letras soletradas pelo tato na palma da mão. O braille veio depois, como forma de ler sozinha. Em 1890, aos 10 anos, ela pediu também para aprender a falar, e Anne Sullivan a levou até Sarah Fuller, na Horace Mann School for the Deaf, em Boston.
A cena da bomba d'água está no centro da peça The Miracle Worker e do filme de 1962, que no Brasil se chamou O milagre de Anne Sullivan. A palavra "água", em braille, se escreve ⠷⠛⠥⠁; o primeiro sinal é o á.
Que braille ela lia
No fim do século XIX, não havia um só braille nos Estados Unidos. Os livros para cegos eram impressos em sistemas rivais: os tipos em relevo (letras que imitam as impressas), o New York Point, o braille americano e o braille inglês, derivado do original francês de Louis Braille. Para ler tudo, uma pessoa cega tinha de aprender vários. Helen Keller aprendeu.
A guerra dos pontos
A rivalidade entre esses códigos foi tão dura que ganhou o nome de guerra dos pontos (War of the Dots). Em 1909, quando a cidade de Nova York precisou escolher o código das novas turmas de crianças cegas, Helen Keller escreveu ao conselho de educação. A carta, reproduzida pela AFB a partir da história de Robert B. Irwin (AFB, War of the Dots), explica que o assunto não lhe interessava por ela mesma, já que lia todos os sistemas, mas pelas muitas pessoas cegas que não tinham a mesma sorte.
Nela, Helen Keller defende o braille americano. Os livros em New York Point quase sempre omitiam as maiúsculas, os apóstrofos e os hifens, o que, segundo ela, prejudicava a ortografia das crianças. E a forma dos sinais era diferente: o dedo dela se cansava mais com letras de três pontos de largura e dois de altura, como no New York Point, do que com letras de dois pontos de largura e três de altura, como no braille.
Esse último argumento resume a lógica do braille: uma cela de dois pontos de largura e três de altura cabe sob a polpa do dedo. É a cela que Louis Braille fixou em Paris por volta de 1824; veja quem foi Louis Braille.
Como a guerra terminou
Nova York escolheu o braille para suas escolas. O debate durou ainda duas décadas, até 19 de julho de 1932, quando representantes das pessoas cegas da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos assinaram um acordo sobre um código comum. Seu herdeiro é o código usado hoje nos países de língua inglesa, o Unified English Braille.
Escrever: a máquina de escrever braille
Helen Keller era antes de tudo escritora, e escreveu muito. A AFB conta que ela preparava os manuscritos numa máquina de escrever braille e depois os copiava numa máquina comum, para os leitores que enxergam. Uma máquina braille marca as celas com seis teclas, uma para cada ponto.
O nome dela, em braille português, fica assim: ⠨⠓⠑⠇⠑⠝⠀⠨⠅⠑⠇⠇⠑⠗. O sinal antes de cada nome indica a letra maiúscula.
Helen Keller no Brasil
Em 1953, Helen Keller esteve no Brasil como visitante oficial do governo brasileiro e deu várias palestras para empresários e universitários, com o apoio de Dorina Nowill, segundo a Fundação Dorina Nowill para Cegos (quem foi Helen Keller). Depois dessa visita, as duas se tornaram grandes amigas.
Dorina Nowill ficou cega aos 17 anos e dedicou a vida à educação de pessoas cegas. A fundação que criou em São Paulo em 1946, para transcrever livros em braille, leva hoje o nome dela. A história do braille no país, de José Álvares de Azevedo ao Instituto Benjamin Constant, está em o braille no Brasil.
Perguntas frequentes
Helen Keller lia braille?
Sim. Ela lia vários códigos em relevo, entre eles o braille americano e o New York Point; em 1909, escreveu que lia todos os sistemas.
Como Helen Keller aprendeu a ler?
Anne Sullivan lhe ensinou primeiro as palavras soletrando-as na palma da mão, com o alfabeto manual, a partir de 1887. Depois ela passou a ler com os dedos os tipos em relevo e o braille.
Helen Keller escrevia em braille?
Sim. Ela preparava os manuscritos numa máquina de escrever braille e depois os copiava numa máquina comum, para que quem enxerga pudesse lê-los.
Qual é o livro mais conhecido de Helen Keller?
A autobiografia The Story of My Life, de 1903, publicada em português como A história da minha vida.
Helen Keller esteve no Brasil?
Sim, em 1953, como visitante oficial do governo brasileiro. Deu palestras com o apoio de Dorina Nowill, de quem ficou amiga.
Quem inventou o braille?
Louis Braille, na França, por volta de 1824. Veja quem foi Louis Braille.
