Futebol de cegos: regras, como se joga e a seleção do Brasil
O futebol de cegos é uma adaptação do futebol para pessoas cegas, com cinco atletas por time: quatro na linha, todos vendados, e um goleiro que enxerga ou tem baixa visão. A bola tem guizos por dentro, e um guia atrás do gol adversário, o chamador, orienta o ataque. É esporte paralímpico desde Atenas 2004, e no Brasil quem administra a modalidade é a Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV).
Abaixo você encontra como se joga, as regras atuais da IBSA, a quadra e a bola, quem pode jogar, a origem do esporte, as conquistas da seleção brasileira e onde praticar no Brasil, inclusive na escola.
Em resumo
- Cinco contra cinco. Cada time tem quatro jogadores de linha e um goleiro, e os de linha jogam com uma venda nos olhos (CBDV).
- Uma bola que se ouve. Ela pesa de 510 a 540 gramas e tem guizos; por isso a partida pede silêncio (CBDV).
- Quem vai na bola avisa. O jogador tem de dizer "voy" ao buscar a bola, e quem não avisa comete falta (regras da IBSA 2025-2029).
- Dois tempos de 20 minutos. O intervalo é de até 10 minutos, e cada equipe tem um pedido de tempo de 1 minuto por tempo (regras da IBSA).
- O Brasil é o maior vencedor. Foi ouro nos cinco primeiros torneios paralímpicos, de Atenas 2004 a Tóquio 2020, e bronze em Paris 2024 (CBDV, IPC).
O que é o futebol de cegos
O futebol de cegos é a versão do futebol para atletas da classe B1, a de quem tem a deficiência visual mais severa. A IBSA, a federação internacional de esportes para cegos, divide o esporte em dois: o futebol para cegos, da classe B1, e o futsal para atletas com baixa visão, das classes B2 e B3. Os dois grupos competem separadamente.
No Brasil, a CBDV organiza as duas modalidades com nomes próprios: futebol de cegos e futebol B2/B3. Só o futebol de cegos faz parte dos Jogos Paralímpicos.
Muita gente procura o esporte como futsal para cegos ou futebol cego. Faz sentido: o jogo lembra o futsal, com poucos jogadores e uma quadra pequena. Mas, nas regras internacionais, futsal é o nome que a IBSA dá à versão para baixa visão.
É um jogo rápido, técnico e com contato físico. A IBSA recomenda que a quadra fique, de preferência, ao ar livre, para que a acústica funcione bem para os jogadores.
Como se joga
Cada equipe entra com cinco jogadores: quatro na linha e um goleiro. Segundo a CBDV, os jogadores de linha usam venda para ficar em condições iguais, já que alguns atletas percebem vultos. As regras da IBSA pedem tampões nos dois olhos e a venda por cima. Tocar na venda de propósito é falta.
Três vozes que orientam
Sem enxergar, o jogador se guia pelo som da bola e pela voz de três orientadores, cada um responsável por um terço da quadra (CBDV):
- Na defesa, o goleiro. Ele fala com os defensores e não pode sair da sua pequena área.
- No meio, o técnico. Ele orienta, do banco, quem está no terço central.
- No ataque, o chamador. Ele fica atrás do gol adversário e informa a direção do gol, os marcadores e a posição da defesa. Quando vai ser cobrada uma falta ou um pênalti, bate nas traves para mostrar onde está o gol.
O "voy"
O jogador que vai na bola tem de falar "voy", que é "vou" em espanhol. A CBDV explica que a regra existe "na tentativa de se evitar choques". Nas regras da IBSA, quem não avisa comete falta, e o adversário cobra um tiro livre direto.
O silêncio
A bola tem guizos, e é pelo som que os jogadores sabem onde ela está. Por isso, segundo a CBDV, a modalidade "deve ser praticada em um ambiente silencioso". A torcida é bem-vinda, mas só pode se manifestar quando a bola está fora de jogo (CBDV, IPC).
As bandas laterais
Em volta da quadra há bandas laterais, uma espécie de mureta que marca os limites do jogo. Não existe arremesso lateral com as mãos nem impedimento, mas o escanteio existe (IBSA, IPC).
Regras principais da IBSA
As regras em vigor são as Regras do Jogo do Futebol para Cegos da IBSA 2025-2029, que a CBDV publica na sua página de regras. A tabela resume o que mais muda em relação ao futebol comum.
| Ponto | O que diz a regra |
|---|---|
| Jogadores | 5 por time (4 de linha e 1 goleiro), mais o chamador atrás do gol |
| Duração | 2 tempos de 20 minutos, com intervalo de até 10 minutos |
| Pedido de tempo | 1 por equipe em cada tempo, de 1 minuto |
| Substituições | Ilimitadas, em até 5 oportunidades por tempo |
| Faltas | A partir da 5.ª falta do time no tempo, tiro livre da marca de 8 m, sem barreira |
| Arremesso lateral e impedimento | Não existem |
| Quando precisa de vencedor | Decisão por pênaltis |
A CBDV acrescenta que a partida não continua se um time ficar com menos de três jogadores em quadra, contando o goleiro (CBDV).
A quadra, a bola e o gol
| Item | Medida |
|---|---|
| Quadra | 38 a 42 m de comprimento e 20 m de largura |
| Bandas laterais | De 1 m a 1,20 m de altura |
| Gol | 3,66 m de largura e 2,14 m de altura |
| Área do goleiro | 5,82 m por 2 m |
| Marcas de pênalti | A 6 m e a 8 m do gol |
| Bola | 60 a 62 cm de circunferência e 510 a 540 g, com guizos |
As medidas são das regras da IBSA; o gol, a área do goleiro e a bola também aparecem na página da CBDV. A página geral da IBSA fala em quadra de 40 por 20 metros, e o texto das regras admite de 38 a 42 metros de comprimento.
Quem pode jogar: classes e futebol B2/B3
No futebol de cegos masculino, os jogadores de linha são da classe B1. O goleiro pode enxergar ou ter baixa visão, nas classes B2 ou B3. Nas competições femininas, as regras da IBSA aceitam jogadoras B1, B2 e B3 na linha.
As classes vêm da classificação esportiva da IBSA. O que significa cada uma, B1, B2 e B3, explicamos no post sobre goalball, que usa as mesmas classes.
O futebol feminino ainda está crescendo. A IBSA reuniu 60 jogadoras de 9 países num campo de treinamento em Viena, em 2017. Nos Jogos Paralímpicos, ainda não houve torneio feminino (IPC).
Para quem tem baixa visão existe o futebol B2/B3. Segundo a CBDV, ele se joga sem venda, numa quadra de 40 por 20 metros, e "não está presente na grade dos Jogos Paralímpicos". Cada time precisa ter ao menos dois jogadores B2 em quadra, e os B3 usam uma braçadeira. No Brasil ainda há poucas equipes, com uma competição oficial da CBDV por ano. O primeiro Mundial da categoria foi em Campinas (SP), em 1998, e a Bielorrússia foi a campeã (CBDV, IBSA).
De onde veio o futebol de cegos
Ninguém leva o crédito pela invenção. Segundo a IBSA e o IPC, o esporte começou na Espanha, nos anos 1920.
No Brasil, as versões variam. A CBDV conta que há relatos dos anos 1950 de pessoas cegas jogando com latas ou garrafas, e depois com bolas envoltas em sacolas plásticas. Isso acontecia em instituições como o Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, o Instituto Padre Chico, em São Paulo, e o Instituto São Rafael, em Belo Horizonte. A IBSA fala em atividade no Brasil a partir dos anos 1960.
O primeiro campeonato também tem duas datas. Para a CBDV, ele aconteceu em 1978, nas Olimpíadas das APAEs, em Natal, e a primeira Copa Brasil veio em 1984, em São Paulo. A IBSA cita 1974 como o ano do primeiro campeonato nacional.
A organização internacional começou nos anos 1990:
| Ano | Marco |
|---|---|
| 1996 | A IBSA assume o futebol para cegos e cria regras internacionais |
| 1997 | Primeira Copa América, em Assunção, vencida pelo Brasil |
| 1998 | Primeiro Mundial, no Brasil, com título brasileiro na final contra a Argentina |
| 2004 | Estreia nos Jogos Paralímpicos, em Atenas |
A seleção brasileira de futebol de cegos
O Brasil é a seleção mais vitoriosa do esporte. Nos Jogos Paralímpicos, ganhou medalha em todas as edições:
| Jogos | Brasil |
|---|---|
| Atenas 2004 | Ouro |
| Pequim 2008 | Ouro |
| Londres 2012 | Ouro |
| Rio 2016 | Ouro |
| Tóquio 2020 (disputados em 2021) | Ouro |
| Paris 2024 | Bronze |
Em Atenas, o primeiro torneio paralímpico teve seis seleções, e o Brasil estreou com 4 a 0 sobre a Coreia do Sul (IPC). A final foi contra a Argentina: 0 a 0 no tempo normal e 3 a 2 para o Brasil nos pênaltis (CBDV, IBSA).
Em Paris, a sequência de ouros acabou. Depois de um 0 a 0, o Brasil perdeu a semifinal para a Argentina nos pênaltis, por 4 a 3 (IPC). Na disputa do bronze, venceu a Colômbia por 1 a 0, com gol de Jefinho (IPC, Agência Brasil). A França ficou com o ouro.
Nos Mundiais da IBSA, o Brasil tem cinco títulos: 1998, 2000, 2010, 2014 e 2018 (CBDV, Agência Brasil). O último foi em Madri, com 2 a 0 sobre a Argentina na final (IPC).
Na Copa América, a CBDV lista seis títulos, de 1997 a 2019 (CBDV). Em setembro de 2026 veio o sétimo: 3 a 0 na Colômbia, na final em São Paulo, sem perder nenhum jogo (Agência Brasil).
O IPC destaca Jefinho e Ricardinho como os líderes do ouro no Rio 2016 (IPC). Os perfis dos convocados, com clube e títulos, estão na página da seleção na CBDV.
Onde jogar futebol de cegos no Brasil
O caminho começa numa entidade ligada à CBDV. Três páginas ajudam a encontrar uma:
- Entidades por estado. A CBDV mantém a lista de entidades cadastradas, dividida por região e por estado. Nem toda entidade tem equipe de futebol de cegos, então vale perguntar antes de ir.
- Ranking de clubes. O ranking nacional mostra as equipes que disputam competições oficiais. Segundo a CBDV, ele é atualizado duas vezes por ano; quando escrevemos este texto, a versão publicada era a de fevereiro de 2026.
- Liga Nacional. A principal competição de clubes é a Liga Nacional de Futebol de Cegos, com regulamento de 2026 público. Os resultados de cada etapa saem nas notícias da página da modalidade na CBDV.
Se a pessoa tem baixa visão e não é da classe B1, a modalidade dela é o futebol B2/B3. A mesma lista de entidades serve de ponto de partida.
Na escola: as Paralimpíadas Escolares
Para famílias e escolas, a porta de entrada mais organizada são as Paralimpíadas Escolares, do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB). Elas existem para "estimular a participação dos estudantes com deficiência física, visual e intelectual".
Pelo regulamento da fase nacional de 2025, o futebol de cegos escolar segue as regras da IBSA com algumas adaptações:
- quadra menor, de 28 por 20 metros, com os mesmos gols;
- dois tempos de 20 minutos corridos, com 10 minutos de intervalo;
- categoria única para alunos nascidos de 2008 a 2013, meninos e meninas, e 1 ponto de bônus na fase classificatória para a equipe que inscreve uma menina;
- até 6 jogadores de linha da classe B1 e 2 goleiros por equipe, além de técnico e chamador;
- caneleira e venda obrigatórias, e a organização fornece o material para cobrir os olhos por baixo da venda.
O caminho da escola até a seleção existe. Na página da seleção, a CBDV conta que o jogador Anael começou no futebol aos 11 anos, na escolinha do CPB, e foi convocado para a seleção sub-23 depois das Paralimpíadas Escolares.
O goalball também está nas Paralimpíadas Escolares, e explicamos como funciona no post sobre goalball. Para entender os termos e os direitos ligados à deficiência visual, veja o nosso guia sobre deficiente visual.
Do som da bola ao relevo das letras
No futebol de cegos, a informação chega pelo ouvido: os guizos da bola, o "voy" de quem chega, a voz do chamador. Na leitura, ela pode chegar pelos dedos. No braille, cada letra é uma combinação de pontos em relevo dentro de uma cela, e o alfabeto braille é o primeiro passo. Algumas das escolas citadas na história do esporte também são parte da história do braille, como contamos em braille no Brasil.
Nem todo jogador de futebol de cegos lê braille, e muita gente lê com leitor de tela ou em áudio, mas para muitas pessoas o alfabeto em relevo é o caminho para ler sem depender de ninguém. O Braillito, nosso app, ensina o alfabeto com lições curtas que se jogam no celular. Não é um treino de futebol nem substitui um professor de braille: é uma forma de praticar as letras um pouco por dia. Se for útil, baixe o app.
Perguntas frequentes
Quem pode jogar futebol de cegos?
Nas competições masculinas, os jogadores de linha são da classe B1, a de deficiência visual mais severa, e jogam vendados. O goleiro pode enxergar ou ter baixa visão. Nas competições femininas, a linha aceita as classes B1, B2 e B3 (regras da IBSA).
Por que os jogadores falam "voy"?
Para avisar que estão indo na bola e evitar choques. "Voy" quer dizer "vou" em espanhol, e não avisar é falta (CBDV).
O goleiro do futebol de cegos enxerga?
Pode enxergar. As regras aceitam um goleiro sem deficiência visual ou com baixa visão, das classes B2 ou B3. Ele não pode sair da área de 5,82 por 2 metros e orienta a defesa (CBDV).
Quanto tempo dura uma partida de futebol de cegos?
São dois tempos de 20 minutos, com até 10 minutos de intervalo (regras da IBSA). Nas Paralimpíadas Escolares, também são dois tempos de 20 minutos (CPB).
Quantas vezes o Brasil foi campeão paralímpico de futebol de cegos?
Cinco: Atenas 2004, Pequim 2008, Londres 2012, Rio 2016 e Tóquio 2020. Em Paris 2024, ficou com o bronze (CBDV, IPC).
