O que os cegos veem: da luz à visão parcial, e se sonham
O que os cegos veem muda de pessoa para pessoa, e cegueira nem sempre é escuridão total. Muitas pessoas cegas percebem luz ou vultos, e quem tem baixa visão enxerga uma parte do que está à frente. Aqui você vê o que as fontes dizem sobre isso, sobre a lei brasileira e sobre os sonhos.
Em resumo
- Cegueira nem sempre é escuridão total. A ACAPO, associação de Portugal, diz que as pessoas com deficiência visual costumam ter alguma visão, mesmo quando são consideradas cegas em termos clínicos.
- Cegueira e baixa visão são coisas diferentes. Na lei brasileira, a cegueira é uma acuidade visual igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica. A baixa visão fica entre 0,3 e 0,05.
- As fontes consultadas não dizem quantas pessoas cegas ainda percebem luz. O IBGE pergunta sobre dificuldade de enxergar, e não sobre luz ou vultos.
- Os cegos sonham, mas com menos imagens. Um estudo de 2014 com 50 pessoas achou menos impressões visuais nos sonhos de todas as pessoas cegas, e mais sons, toques, gostos e cheiros nas cegas de nascença.
- Pessoas cegas leem e se orientam pelo tato e pela audição. Com braille, bengala, cão-guia, leitor de tela e piso tátil.
Cegueira nem sempre é escuridão total
Para muita gente, cego quer dizer não ver nada. As organizações ligadas à deficiência visual contam uma história mais variada.
A ACAPO, a Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal, escreve que as pessoas com deficiência visual "têm alguma visão, mesmo que em termos clínicos sejam consideradas cegas". Ela dá exemplos de como isso pode ser:
- Algumas pessoas percebem só a luz e tiram proveito disso, por exemplo para achar uma porta.
- Outras veem vultos.
- Outras enxergam bem à noite, mas ficam ofuscadas pela luz do dia.
- Algumas circulam sozinhas, mas não conseguem ler.
No Brasil, a Fundação Dorina define a cegueira como a perda total da visão ou "pouquíssima capacidade de enxergar". A própria definição já deixa espaço para um pouco de visão.
Quantas pessoas cegas ainda enxergam alguma coisa?
Nenhuma das fontes que consultei traz esse número: nem o IBGE, nem a OMS, nem a Fundação Dorina, nem a ACAPO. Os números que existem medem outra coisa.
No Censo 2022, o IBGE perguntou a pessoas de 2 anos ou mais sobre "dificuldade permanente de visão, mesmo utilizando óculos ou lentes de contato". Cerca de 7,1 milhões de pessoas responderam que têm muita dificuldade. E cerca de 823 mil (0,4%) "relataram não conseguir enxergar de alguma forma", nas palavras do IBGE.
Leia esses números com cuidado:
- São respostas das próprias pessoas, e não o resultado de um exame.
- O IBGE não usa a definição do decreto.
- Eles não separam quem percebe luz de quem não percebe.
Dá para dizer que muita gente no Brasil diz ter muita dificuldade de enxergar, mas não quantas dessas pessoas percebem luz. O post sobre deficiente visual explica melhor esses números.
A escala da OMS: onde começa a cegueira
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a visão pela acuidade visual no melhor olho, isto é, pela capacidade de distinguir detalhes. No Relatório mundial sobre a visão, a escala tem quatro graus, e a cegueira é só o último:
| Grau | Acuidade pior que | Igual ou melhor que |
|---|---|---|
| Deficiência visual leve | 6/12 | 6/18 |
| Deficiência visual moderada | 6/18 | 6/60 |
| Deficiência visual grave | 6/60 | 3/60 |
| Cegueira | 3/60 | (sem limite) |
A fração compara duas distâncias. Segundo a OMS, 6/18 quer dizer que, a 6 metros do gráfico de teste, a pessoa lê uma letra que alguém com visão normal veria a 18 metros. Seguindo a mesma lógica, a cegueira, pior que 3/60, é precisar chegar a menos de 3 metros de uma letra que uma pessoa com visão normal leria a 60 metros.
A própria OMS admite que a cegueira cobre situações diferentes. Em 2010, a classificação foi atualizada e a cegueira passou a ter três níveis de gravidade. Um dos motivos, segundo a OMS, é que antes não havia distinção entre quem não percebe luz e quem percebe luz, mas mede menos de 3/60 no melhor olho. Ou seja: dentro da palavra cegueira, a OMS reconhece quem tem alguma percepção de luz e quem não tem.
O que diz a lei brasileira
A definição legal está no Decreto 5.296/2004, art. 5º, § 1º. Para a deficiência visual, ele diz:
- Cegueira: acuidade visual igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica.
- Baixa visão: acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica.
- Campo visual: também entram os casos em que a soma do campo visual dos dois olhos é igual ou menor que 60 graus, ou quando as condições ocorrem ao mesmo tempo.
O valor de 0,05 é o mesmo que 3/60 da escala da OMS. As duas definições diferem em detalhes. O decreto fala em acuidade igual ou menor e com a melhor correção óptica. A OMS fala em acuidade pior que 3/60 e, desde 2010, na acuidade que a pessoa apresenta no exame. Por isso, números de fontes diferentes nem sempre se comparam.
A Lei 14.126/2021 trata da visão monocular, que é a de quem enxerga com um olho só, e a classifica como deficiência sensorial do tipo visual. É mais um sinal de que cego ou não cego é pouco para descrever como as pessoas enxergam.
Como enxergam as pessoas com baixa visão
Baixa visão não é uma imagem só. Segundo a Fundação Dorina, ela é um comprometimento do funcionamento visual dos olhos que continua mesmo depois de tratamento ou correção. A pessoa com baixa visão pode ler textos impressos ampliados ou com "recursos óticos especiais".
O decreto mostra que há duas formas de medir: a acuidade, que é quanto detalhe a pessoa distingue, e o campo visual, que é quanto da cena ela enxerga de uma vez. Os exemplos da ACAPO, acima, mostram como o resultado pode ser diferente de pessoa para pessoa.
Por isso, duas pessoas com baixa visão podem ver coisas bem diferentes. Quem quer entender o caso de alguém deve perguntar à própria pessoa ou ao profissional que a acompanha. O post sobre baixa visão explica as definições com mais detalhe.
Nascer cego e perder a visão depois
A Fundação Dorina define a deficiência visual como a perda total ou parcial da visão, "congênita ou adquirida". Em outras palavras, a perda pode existir desde o nascimento ou aparecer depois. As fontes mostram dois pontos em que essa diferença pesa:
- A memória do espaço. A ACAPO explica que a pessoa cega se orienta com um mapa mental do lugar, "criado enquanto via, se for o caso". Quem perdeu a visão depois pode ter montado esse mapa quando enxergava.
- Os sonhos. O estudo que você vê mais adiante achou diferenças entre os dois grupos.
Se alguém da sua família está perdendo a visão
A ACAPO descreve a perda da visão como importante para qualquer pessoa e diz que é natural passar por um período de luto, com tristeza, revolta ou desamparo. Ela recomenda procurar ajuda, evitar o isolamento e se cercar de pessoas que apoiem. E lembra que cegar ou passar a ter baixa visão "não significa que a sua comunicação com o mundo terminou".
Para saber mais sobre reabilitação, veja o post sobre baixa visão.
Os cegos sonham?
Sim. Um estudo de 2014, publicado na revista Sleep Medicine, acompanhou 11 pessoas cegas de nascença, 14 que perderam a visão depois e 25 que enxergam, pareadas por idade e sexo com as pessoas cegas. Durante 4 semanas, todas registraram seus sonhos pela manhã, em um questionário. Segundo o resumo do estudo:
- Menos imagens. Todas as pessoas cegas tiveram menos impressões visuais nos sonhos do que as que enxergam.
- Mais tempo sem ver, menos imagem. Nas que perderam a visão depois, quanto maior o tempo de cegueira, menores a duração, a nitidez e a cor das imagens.
- Mais outros sentidos. As cegas de nascença relataram mais componentes de audição, tato, paladar e olfato do que as que enxergam. As que perderam a visão depois relataram mais tato.
- Mesmos temas e emoções. O conteúdo emocional e os temas dos sonhos não diferiram entre as pessoas cegas e as que enxergam.
É um estudo pequeno, e aqui usamos só o resumo publicado no PubMed. Ele mostra um padrão nesses grupos, não uma regra para toda pessoa cega.
Como uma pessoa cega lê e se orienta
Sem a visão, outros sentidos e outras ferramentas fazem o trabalho:
- Ler. A Fundação Dorina apresenta o Sistema Braille como o meio de leitura e escrita de quem tem cegueira. Veja como ler braille. No celular e no computador, o leitor de tela lê o texto em voz alta.
- Andar. Segundo a ACAPO, a pessoa cega pode ser guiada por outra pessoa, usar a bengala branca ou um cão-guia.
- Se orientar. Junto com essas ajudas, a pessoa usa a audição, o tato, a percepção dos próprios movimentos, o olfato, o mapa mental do lugar e, quando tem baixa visão, a visão que sobra. O piso tátil é uma das formas de orientar pelo tato.
- Aprender. O ensino de orientação e mobilidade é feito por profissionais habilitados, e vai além de ensinar a usar a bengala.
Nem o cão faz tudo sozinho: a ACAPO lembra que ele "não tem um GPS incorporado", e que o mapa do trajeto está na cabeça da pessoa.
Como explicar para uma criança
Se uma criança perguntou o que os cegos veem, estas ideias bastam para começar:
- Cego nem sempre quer dizer que a pessoa não vê nada. Algumas percebem luz, outras veem vultos.
- Cada pessoa é diferente. Se a criança tem curiosidade sobre uma pessoa específica, o mais respeitoso é perguntar a ela, se ela quiser conversar.
- Quem não vê usa outros sentidos: o tato para ler com os dedos, a audição para saber onde está.
- Pessoas cegas sonham. Segundo um estudo pequeno, os sonhos têm menos imagens e, em quem nasceu cego, mais sons, toques e cheiros.
Da luz ao braille: as palavras luz e sonho
O braille é a escrita das pessoas cegas que se lê com os dedos. Cada letra ocupa uma cela de seis pontos.
Veja a palavra luz: ⠇⠥⠵. O l usa os pontos 1, 2 e 3, o u usa os pontos 1, 3 e 6, e o z usa os pontos 1, 3, 5 e 6. Já a palavra sonho se escreve assim: ⠎⠕⠝⠓⠕. Repare que o o, com os pontos 1, 3 e 5, aparece duas vezes.
Você pode ver todas as letras no alfabeto braille e escrever qualquer palavra no tradutor braille.
Ler com os dedos é um jeito de acessar o texto sem a visão, mas nem toda pessoa cega lê braille, e quem tem baixa visão pode ler texto ampliado. Para quem quer aprender, o começo é o alfabeto. O Braillito, nosso app, ensina o alfabeto com lições curtas que se jogam no celular. Não é um recurso para a visão nem substitui a avaliação de um profissional de saúde ou a reabilitação visual: é uma forma de praticar as letras um pouco a cada dia. Se for útil, baixe o app.
Perguntas frequentes
Os cegos veem tudo preto?
Nem sempre. A ACAPO lembra que as pessoas com deficiência visual costumam ter alguma visão: algumas percebem só a luz, outras veem vultos. Para quem não percebe luz nenhuma, as fontes que consultei não descrevem a experiência, e ela é pessoal. O mais respeitoso é perguntar à própria pessoa, se ela quiser contar.
Os cegos sonham?
Sim. Segundo o resumo de um estudo de 2014, as pessoas cegas têm menos impressões visuais nos sonhos do que as que enxergam. As cegas de nascença relataram mais sons, toques, gostos e cheiros. Nas que perderam a visão depois, quanto mais tempo de cegueira, menos nítidas e menos coloridas as imagens. O estudo é pequeno e não vale como regra para todas as pessoas.
Qual é a diferença entre cegueira e baixa visão?
Na lei brasileira, a cegueira é uma acuidade visual igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica. A baixa visão fica entre 0,3 e 0,05. A Fundação Dorina explica que quem tem cegueira precisa do braille para ler e escrever, e quem tem baixa visão pode ler texto ampliado ou usar recursos óticos. Veja também o post sobre baixa visão.
Como uma pessoa cega lê e se orienta?
Lê com o braille, com um leitor de tela que fala o texto ou, quando tem baixa visão, com texto ampliado. Se orienta com a bengala branca, com um cão-guia ou guiada por outra pessoa, e usa a audição, o tato e o mapa mental do lugar. Esse ensino é feito por profissionais de orientação e mobilidade.
