Surdocegueira: o que é e como se comunica a pessoa surdocega
A surdocegueira é a condição de quem tem, ao mesmo tempo, perda de visão e perda de audição, em graus que mudam de pessoa para pessoa. No Brasil, a Lei 14.605/2023 a reconhece como "condição de deficiência única", e não como duas deficiências somadas. A pessoa surdocega se comunica de muitas formas, como a Libras tátil, a escrita na palma da mão, o tadoma e o braille, muitas vezes com a ajuda de um guia-intérprete.
Em resumo
- É uma deficiência única. A Lei 14.605/2023 trata a surdocegueira como uma condição própria, com necessidades próprias.
- Pode ser congênita ou adquirida. Para a comunicação, o que mais pesa é se a pessoa já tinha uma língua, o português ou a Libras, quando a surdocegueira chegou.
- Não existe uma forma só de se comunicar. Libras tátil, Libras em campo reduzido, alfabeto manual tátil, escrita na palma da mão, tadoma, fala ampliada e braille são algumas delas.
- Guia-intérprete é profissão regulamentada. A Lei 14.704/2023 o incluiu na lei dos tradutores e intérpretes de Libras.
- Duas datas: 12 de novembro, Dia Nacional da Pessoa com Surdocegueira, e 27 de junho, Dia Internacional da Surdocegueira, aniversário de Helen Keller.
O que é a surdocegueira
A Ahimsa, organização de São Paulo especializada no tema, fala em surdocegueira sempre que há deficiência visual e auditiva ao mesmo tempo. Ela pode vir acompanhada de outras deficiências. E os graus variam muito. Uma apresentação feita numa audiência pública da Câmara dos Deputados lista quatro combinações:
- baixa audição e baixa visão;
- surdez total e baixa visão;
- baixa audição e cegueira total;
- surdez e cegueira totais.
Ou seja: muitas pessoas surdocegas enxergam ou ouvem alguma coisa. Isso muda a forma de comunicação que funciona para cada uma.
Por que é uma deficiência única
Uma pessoa cega costuma usar a audição para se orientar e se comunicar. Uma pessoa surda costuma usar a visão. A pessoa surdocega não tem um sentido inteiro para compensar o outro. A ONU explica a surdocegueira nesses termos: é difícil que um sentido afetado compense o outro, e por isso ela tem barreiras e necessidades de apoio próprias.
No Senado, o parecer da senadora Zenaide Maia resumiu a ideia: "não são duas deficiências juntas, mas uma deficiência única". A notícia da Agência Senado registra também a fala da senadora Mara Gabrilli, que comemorou ver a surdocegueira "levada em consideração como uma deficiência singular".
Por isso se escreve surdocegueira, sem hífen: segundo a apresentação feita na Câmara, a grafia sem hífen marca a surdocegueira como deficiência única. A LDB ainda usa surdo-cego, com hífen.
Surdocegueira congênita e adquirida
A Ahimsa separa dois grandes grupos:
- Surdocegueira congênita: a criança nasce surdocega ou fica surdocega muito cedo, antes de adquirir uma língua, seja o português oral, seja a Libras.
- Surdocegueira adquirida: a pessoa tinha uma deficiência, auditiva ou visual, e depois adquire a outra. Ou fica surdocega depois de já ter uma língua.
A diferença que importa aqui não é a causa. É a língua. Uma criança com surdocegueira congênita precisa construir a comunicação desde o começo, com apoio especializado. Uma pessoa que nasceu surda, aprendeu Libras e depois perdeu a visão pode continuar na Libras, adaptada ao tato ou a um campo visual menor. Quem era cego, lia braille e depois perdeu a audição pode manter o braille para ler e escrever.
O material da Prefeitura de São Paulo, baseado numa publicação do MEC, descreve as combinações mais comuns:
- cegueira congênita e surdez adquirida;
- surdez congênita e cegueira adquirida;
- cegueira e surdez congênitas;
- cegueira e surdez adquiridas;
- baixa visão com surdez congênita ou adquirida.
Este texto não fala de causas nem de diagnóstico. Essas perguntas são para a equipe de saúde que acompanha a pessoa.
Como se comunica a pessoa surdocega
Não existe uma forma única. A apresentação feita na Câmara lista estas como as principais: braille, braille tátil, escrita em letra de forma na palma da mão, Libras tátil, Libras em campo reduzido, alfabeto datilológico tátil, comunicação social háptica, tadoma e fala ampliada. Cada pessoa usa as que combinam com a sua história, com o que ainda enxerga e ouve, e com quem está do outro lado. Muitas usam mais de uma.
A lei reconhece essa variedade. A Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) define comunicação incluindo a Libras, o braille e "o sistema de sinalização ou de comunicação tátil".
Libras em campo reduzido
Para quem nasceu surdo, a primeira língua costuma ser a Libras. Se a pessoa ainda enxerga, mas com o campo visual reduzido, o guia-intérprete faz os sinais "em um determinado campo limitado", no espaço que ela consegue ver. É o que explica o material da Prefeitura de São Paulo. A língua é a mesma. Mudam o tamanho e o lugar dos sinais.
Libras tátil
Quando a visão já não permite acompanhar os sinais, a Libras passa para o tato. A pessoa surdocega percebe os sinais com as mãos, e não com os olhos. A UFMG descreve a Libras tátil como "realizada na palma da mão".
Para quem já sabe Libras, é um bom ponto de partida: a língua continua a mesma. Se você confunde Libras e braille, o post sobre braille e Libras explica a diferença.
Alfabeto manual tátil e escrita na palma da mão
No alfabeto datilológico tátil, cada letra do alfabeto manual dos surdos é feita na mão da pessoa surdocega. Nas palavras do material da Prefeitura: "O interlocutor faz a letra na palma da mão da pessoa surdocega". Foi assim, soletrando palavras na mão, que Anne Sullivan ensinou as primeiras palavras a Helen Keller.
A escrita em letras de forma é ainda mais simples de começar. Quem conversa com a pessoa surdocega escreve letras maiúsculas na palma da mão dela, uma por uma. Como diz o mesmo material, "O dedo indicador funciona como uma caneta". Basta conhecer o alfabeto em letras maiúsculas. Para uma família no começo, pode ser uma primeira ponte.
Tadoma
O tadoma serve para quem conhece a língua oral. A pessoa surdocega põe uma das mãos no rosto de quem fala, perto da boca, e sente a articulação das palavras e a vibração dos sons. Por isso o método também é chamado de "leitura labial tátil". Segundo a Prefeitura de São Paulo, ele exige muito treino e foi criado pela professora norte-americana Sophia Alcorn.
Fala ampliada e comunicação háptica
A fala ampliada aproveita o que a pessoa ainda ouve. Já a comunicação social háptica, segundo a UFMG, é "feita com símbolos e palavras em várias partes do corpo".
Braille, linha braille e outros recursos
Para muitas pessoas surdocegas, o braille é a forma de ler e escrever com autonomia. O material da Prefeitura de São Paulo cita os recursos usados: reglete e punção, máquina braille, soroban e, hoje, a linha braille. A linha braille, ligada ao computador ou ao celular, mostra em braille o texto da tela. Para uma pessoa surdocega, isso pode abrir mensagens, e-mails e conversas por escrito.
O mesmo material descreve outros recursos:
- Tablitas de comunicação: placas de plástico com letras em relevo, números e caracteres em braille. A pessoa surdocega põe o dedo indicador sobre as letras para se comunicar.
- Tellatouch: um aparelho com um teclado comum e um teclado de máquina braille. Quem conversa digita no teclado comum, e a letra sobe em braille numa cela na parte de trás, uma de cada vez. O interlocutor não precisa saber braille.
O guia-intérprete
O guia-intérprete é "O principal recurso de acessibilidade para a pessoa com surdocegueira", diz o material da Prefeitura de São Paulo. O nome junta as duas funções: interpretar e guiar.
Desde a Lei 14.704/2023, ele faz parte da lei que regulamenta a profissão de tradutor e intérprete de Libras, a Lei 12.319/2010. A lei define o guia-intérprete como o profissional que "domina, no mínimo, uma das formas de comunicação utilizadas pelas pessoas surdocegas". O trabalho vale em qualquer área ou situação em que pessoas surdas ou surdocegas precisem se comunicar com quem não fala a língua delas. A Câmara dos Deputados noticiou a lei quando ela entrou em vigor, em outubro de 2023.
A ONU também destaca o papel desses profissionais: para ela, guias-intérpretes são essenciais para o acesso à informação, à comunicação, aos serviços e aos direitos das pessoas surdocegas.
A Lei Brasileira de Inclusão cita os guias intérpretes duas vezes. No art. 28, inciso XI, eles estão entre os profissionais que o sistema educacional deve formar e disponibilizar. No art. 73, a lei atribui ao poder público a capacitação desses profissionais.
Em São Paulo, por exemplo, a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência disponibiliza guias-intérpretes pela Central de Intermediação em Libras (CIL), para atendimento em serviços públicos da cidade, segundo a Prefeitura.
Na escola e em casa
Na escola, duas leis ajudam a entender o que está previsto:
- LDB: a Lei 14.191/2021 incluiu na Lei de Diretrizes e Bases a educação bilíngue de surdos, com a Libras como primeira língua e o português escrito como segunda. O texto cita expressamente os educandos surdo-cegos. O art. 60-B fala em materiais didáticos e professores bilíngues.
- LBI: o art. 28 inclui a oferta de ensino da Libras e do Sistema Braille, e a formação e disponibilização de guias intérpretes.
Como isso chega a cada aluno depende da rede de ensino e do plano feito com a família. Para saber o que vale no seu caso, pergunte à escola e à secretaria de educação.
A Ahimsa presta assessoria técnica a secretarias municipais e estaduais de educação de todo o Brasil. Em parceria com a Perkins International, mantém também um centro de recursos online, com materiais sobre o tema.
Para professores e famílias, alguns cuidados ajudam no dia a dia:
- Pergunte primeiro como a pessoa se comunica. Ela mesma, a família ou o guia-intérprete sabem dizer.
- Apresente-se sempre do mesmo jeito, para que a pessoa reconheça você pelo toque.
- Avise antes de mudar algo de lugar e antes de ir embora.
- Dê tempo. A comunicação tátil é mais lenta que a falada.
Organizações no Brasil
- Grupo Brasil de Apoio ao Surdocego e ao Múltiplo Deficiente Sensorial. No site do Grupo Brasil há cursos sobre surdocegueira e de formação de guia-intérprete, oferecidos com a Ahimsa.
- Ahimsa. A Ahimsa é uma organização social de educação e saúde, em São Paulo, especializada em surdocegueira e deficiência múltipla sensorial.
- ABRASC, Associação Brasileira de Surdocegos. É uma associação das próprias pessoas surdocegas. A revista Espaço, do INES, registrou um encontro nacional de surdocegos realizado pela ABRASC, com assessoria do Grupo Brasil.
Como se aproximar de uma pessoa surdocega
O material da Prefeitura de São Paulo, baseado no MEC, traz dicas simples:
- "Pergunte como deve se comunicar com o surdocego ao seu guia ou acompanhante".
- Ao chegar perto, toque levemente as mãos da pessoa para avisar que você está ao lado. Ou espere ser apresentado.
- Tenha paciência. Segundo o mesmo material, muitas vezes "a principal barreira é a atitude em relação às pessoas com deficiência".
A ONU lembra ainda que a bengala listrada de vermelho e branco é usada pela comunidade surdocega para mobilidade e identificação. Se você vir alguém com ela, a pessoa pode não ver nem ouvir você chegar.
Datas: 12 de novembro e 27 de junho
12 de novembro é o Dia Nacional da Pessoa com Surdocegueira, criado pela Lei 14.605/2023. O projeto (PL 2.260/2019) foi do ex-deputado Eduardo Barbosa, segundo a Agência Senado. Entre os objetivos da data, a lei cita "dar visibilidade às pessoas com surdocegueira congênita ou adquirida".
27 de junho é o Dia Internacional da Surdocegueira. A Assembleia Geral da ONU proclamou a data na resolução A/RES/79/294, em homenagem ao nascimento de Helen Keller, em 1880. A Prefeitura de São Paulo também lembra o 27 de junho como Dia Internacional das Pessoas Surdocegas. A história dela, inclusive a visita ao Brasil, está no post sobre Helen Keller.
Para ler com os dedos, primeiro o alfabeto
Para a pessoa surdocega que usa braille, cada mensagem, livro ou linha braille passa pelas mesmas letras: seis pontos numa cela, lidos com a ponta dos dedos. O post como ler braille mostra como a cela funciona. A letra a, por exemplo, é só o ponto 1 (⠁). O s, primeira letra de surdocegueira, usa os pontos 2, 3 e 4 (⠎).
Se você é da família, professor ou profissional e quer entender o que a pessoa surdocega lê com os dedos, tenha à mão o alfabeto braille e o guia como aprender braille. O Braillito, nosso app, ensina o alfabeto com lições curtas que se jogam no celular. Não é um sistema de comunicação para pessoas surdocegas nem substitui um guia-intérprete ou um professor especializado: é uma forma de praticar as letras todos os dias. Se for útil, baixe o app.
Perguntas frequentes
Surdocegueira é deficiência múltipla?
Não, pela lei brasileira. A Lei 14.605/2023 reconhece a surdocegueira como deficiência única. A apresentação feita na Câmara diz o mesmo: "uma deficiência única (e não múltipla)". A pessoa surdocega pode ter outras deficiências associadas, mas a surdocegueira em si não é a soma de duas.
O que é Libras tátil?
É a Libras percebida pelo toque. A pessoa surdocega acompanha os sinais com as mãos, e não com os olhos. Ela é usada quando a visão já não permite ver os sinais. Quem ainda enxerga um pouco pode usar a Libras em campo reduzido.
Toda pessoa surdocega lê braille?
Não. O braille é uma das formas de comunicação, ao lado da Libras tátil, do tadoma, da escrita na palma da mão e de outras. Depende da história de cada pessoa: quando a surdocegueira chegou, que língua ela já tinha e o que ainda enxerga ou ouve.
O que faz um guia-intérprete?
Faz a ponte entre a pessoa surdocega e as outras pessoas, numa forma de comunicação que ela entende, e a acompanha. Pela Lei 14.704/2023, é o profissional que domina pelo menos uma das formas de comunicação usadas pelas pessoas surdocegas.
Quando é o Dia Nacional da Pessoa com Surdocegueira?
Em 12 de novembro, pela Lei 14.605/2023. O Dia Internacional da Surdocegueira, proclamado pela ONU, é em 27 de junho.
