Personagens cegos: da Turma da Mônica ao Demolidor

Entre os personagens cegos da ficção estão a Dorinha, da Turma da Mônica, e o Demolidor, da Marvel. No meio do caminho estão o Leo, do filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, o Jatobá, da novela América, a Toph, de Avatar, e a Marie-Laure, de All the Light We Cannot See. Aqui cada um aparece com a obra e, quando as fontes confirmam, o ano, quem a criou e o jeito como a história mostra a cegueira.

Em resumo

  • Dorinha é a personagem da Turma da Mônica que fala de cegueira: criada por Maurício de Sousa e inspirada em Dorina Nowill, segundo a Fundação Dorina Nowill.
  • No Brasil, o cinema tem o Leo (Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, 2014) e a televisão tem o Jatobá e a Flô (América).
  • De fora do Brasil, o post reúne o Demolidor, a Toph, a Marie-Laure, o Baba Voss (See) e o profeta Tirésias, da Odisseia.
  • Nem todo papel foi de um ator cego. A Marie-Laure foi vivida por atrizes cegas ou com baixa visão; o Demolidor, por um ator sem deficiência visual.
  • Se a fonte não diz, o post não supõe. A leitura de braille aparece em fonte só para a Marie-Laure e para o Demolidor, nas falas dos dois atores.

Personagens cegos no Brasil: quadrinhos, TV e cinema

Dorinha, da Turma da Mônica

Dorinha é a personagem da Turma da Mônica que explica às crianças como as pessoas cegas percebem o mundo. As páginas consultadas não a chamam de cega, e por isso este post também não. Ela foi criada por Maurício de Sousa, e a Fundação Dorina Nowill para Cegos a descreve como inspirada em Dorina Nowill, a fundadora da própria Fundação.

Ela é a protagonista do livro Como Dorinha vê o mundo, feito pela Fundação com o Instituto Maurício de Sousa. São 24 páginas impressas em braille e em fonte ampliada, e a primeira edição teve 3 mil exemplares, planejados para 500 escolas da rede municipal de São Paulo. O Instituto Maurício de Sousa lembra que também existe uma versão com audiodescrição. O lançamento foi em 2019, o ano do centenário de Dorina, como registra um parecer do Senado Federal.

Na matéria da Fundação, é a própria Dorinha quem explica: "É através do tato, usando os dedos e as mãos" que as pessoas cegas começam a perceber o mundo. O livro também apresenta o sistema braille e foi pensado para que alunos cegos, com baixa visão e que enxergam leiam a mesma história. Para saber mais sobre esse tipo de edição, veja o post sobre livros em braille.

Leo, em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)

O filme é de Daniel Ribeiro, o primeiro longa-metragem dele, e foi apresentado no Festival de Berlim de 2014, na mostra Panorama, como mostram as páginas da Berlinale e do Teddy Award; a ficha do Teddy Award dá 2013 como ano de produção. O protagonista, Leo, é um adolescente cego de 15 anos.

Segundo as duas fichas, Leo está cansado da superproteção dos pais e quer ter controle da própria vida: pede um intercâmbio na escola. A chegada de um aluno novo, o Gabriel, mexe na rotina dele e na amizade com a Giovana, a melhor amiga. A cegueira é uma característica do personagem, e a história gira em torno de independência, amizade e descobertas. As fichas não dizem se Leo lê braille, e por isso este post não afirma.

Jatobá e Flô, em América

América é uma novela da TV Globo, e a Memória Globo descreve dois personagens cegos que se encontram na história.

  • Jatobá (Marcos Frota) perdeu a visão depois de adulto. Faz esportes e se prepara para os Jogos Paralímpicos com a ajuda de um treinador. Segundo a Memória Globo, ele mostra que uma pessoa cega pode ter uma vida independente e se torna "porta-voz das reivindicações dos deficientes visuais".
  • Flô, ou Maria Flor (Bruna Marquezine), nasceu cega. Cresceu cercada de cuidados e conquista a independência por meio do Jatobá. Na trama, o menino Farinha se apega a um cão-guia e se torna amigo dela. Para saber como esse trabalho funciona na vida real, veja o post sobre cão-guia.

A página geral da novela conta que Marcos Frota e Bruna Marquezine passaram dias fazendo tarefas com uma venda nos olhos para entrar no universo dos personagens.

Ensaio sobre a Cegueira: o livro (1995) e o filme (2008)

O romance do português José Saramago foi publicado em 1995, como registram o Prêmio Nobel e a Fundação José Saramago. A fundação resume a história assim: um homem fica cego de repente, dentro do carro, no trânsito, e a cegueira se espalha como um incêndio. Os personagens não têm nome.

O diretor Fernando Meirelles fez o filme de 2008, uma coprodução entre Brasil, Canadá e Japão. Segundo o site do Festival de Cannes, é uma adaptação do romance de Saramago, e ele foi o filme de abertura do festival, na mostra competitiva, como mostra a ficha do filme. Na ficha, uma epidemia de cegueira branca e instantânea põe os primeiros doentes em quarentena num hospital abandonado, e o grupo logo se desfaz em violência. Há uma única testemunha: uma mulher que não perde a visão, esconde isso e guia sete desconhecidos.

Aqui a cegueira funciona como alegoria de uma sociedade que se desfaz. O foco não é a rotina de quem vive com deficiência visual; para conhecer essa realidade, leia o post sobre deficiente visual.

Personagens cegos que o mundo conhece

Demolidor (Matt Murdock)

O advogado Matt Murdock, que de noite combate o crime como o Demolidor, é um super-herói da Marvel. Na série da Netflix, que estreou em abril de 2015, ele é vivido por Charlie Cox. A Netflix, ao anunciar em janeiro de 2016 a segunda temporada (estreia em 18 de março), resumiu o personagem: ele "perdeu a visão na infância, mas desenvolveu outros sentidos".

A American Foundation for the Blind (AFB) conta como foi o preparo do ator. Joe Strechay, que é cego e trabalha na AFB, ajudou Charlie Cox com técnicas de quem vive sem enxergar e diz que Cox foi o primeiro ator sem deficiência visual a quem ensinou essas habilidades. Numa entrevista transcrita na mesma página, Cox conta que praticou a técnica da bengala nas ruas, de olhos vendados. Em outra entrevista, de abril de 2015, Cox lista o que o Matt Murdock faz quando age como uma pessoa cega: usa a bengala, lê braille e acha os objetos da mesa com a articulação do dedo.

Toph Beifong, de Avatar

Toph é uma mestra de dobra de terra cega. Na página de personagens da Netflix para a segunda temporada da versão em live-action de Avatar: The Last Airbender, ela vira professora do Aang e entra para a equipe do Avatar. A Netflix descreve o jeito de ensinar dela como duro e direto: é uma personagem que empurra o Aang a encarar os próprios medos e a ver o mundo por outra perspectiva.

Na descrição da Netflix, a Toph é uma personagem cega que ensina, bate de frente com o Aang e se torna peça importante da equipe. A criação da animação original, com autores e ano, não tem fonte neste post e por isso fica de fora.

Marie-Laure, em All the Light We Cannot See

A série de 2023 da Netflix adapta o romance de Anthony Doerr. A Netflix conta que o diretor e produtor executivo é Shawn Levy e que o roteiro é de Steven Knight. Marie-Laure é uma menina cega francesa que foge de Paris, ocupada pelos alemães, com o pai, Daniel LeBlanc (Mark Ruffalo), e um diamante lendário.

Junto com o Demolidor, ela é uma das duas personagens deste post cuja leitura de braille aparece em fonte. Aria Mia Loberti, que interpreta a Marie-Laure mais velha, contou à Netflix que a personagem, na época da Segunda Guerra, não teria tido o mesmo ensino de braille que as pessoas cegas têm hoje. Por isso a técnica dela teria falhas, e a atriz acrescentou nos closes alguns hábitos próprios.

Baba Voss, em See

See é uma série da Apple TV+ criada e escrita por Steven Knight e dirigida por Francis Lawrence. A Apple a apresentou em outubro de 2019, com estreia marcada para 1º de novembro. A história se passa num futuro distante em que um vírus quase acabou com a humanidade, e quem sobreviveu ficou cego.

Jason Momoa vive o Baba Voss, pai de gêmeos que nascem séculos depois com a capacidade mítica de ver. Ele precisa proteger a tribo de uma rainha poderosa. Na história, a cegueira é a condição de quem sobreviveu, e a visão é que aparece como algo mítico.

Tirésias, na Odisseia

Tirésias é o profeta cego de Tebas, personagem da Odisseia, de Homero. Na tradução para o inglês de Samuel Butler, disponível no Projeto Gutenberg, que escreve o nome como Teiresias, a deusa Circe diz a Ulisses que ele precisa ir à casa de Hades consultar o espírito desse profeta cego, de razão ainda firme. Segundo a deusa, só a ele Perséfone deixou o entendimento, mesmo depois da morte.

Aqui a cegueira anda junto com o saber.

Personagens cegos interpretados por atores cegos

Nem toda produção escolhe atores com deficiência visual, mas algumas escolhem, e as fontes dizem isso com clareza.

  • All the Light We Cannot See. Segundo a Netflix, o diretor queria alguém que de fato fosse cego ou tivesse baixa visão, e a produção fez um chamado mundial para atores nessa condição. Aria Mia Loberti e Nell Sutton, que é legalmente cega e vive a Marie-Laure mais nova, nunca tinham feito um teste: o desse projeto foi o primeiro das duas.
  • See. A Apple diz que o elenco e a equipe têm muitas pessoas cegas ou com baixa visão.
  • Consultoria. Joe Strechay, que é cego, aparece como consultor de Demolidor, de See e de All the Light We Cannot See, segundo a Netflix.

Já em Demolidor, o consultor diz que Charlie Cox foi o primeiro ator sem deficiência visual a quem ele ensinou essas técnicas. Em América, Marcos Frota e Bruna Marquezine se prepararam com venda nos olhos. As duas escolhas existem na ficção, e vale saber qual delas está na tela.

E as pessoas cegas de verdade?

Este post é só de ficção. Para conhecer pessoas reais, veja cegos famosos e leia sobre Dorina Nowill, Helen Keller e Louis Braille.

Dos personagens ao braille: o nome da Dorinha

Entre os personagens da lista, só a Marie-Laure e o Demolidor têm a leitura de braille mencionada em fonte. A Dorinha, porém, tem um livro impresso em braille, e o nome dela também se escreve assim: ⠨⠙⠕⠗⠊⠝⠓⠁.

A primeira cela, com os pontos 4 e 6, é o sinal de maiúscula: na Grafia Braille para a Língua Portuguesa, as letras maiúsculas se escrevem como as minúsculas, com esse sinal logo antes. Depois vem uma cela por letra. A palavra tato, que a Dorinha cita, fica assim: ⠞⠁⠞⠕.

Você pode ver todas as letras no alfabeto braille e escrever qualquer palavra no tradutor braille. O post sobre como ler braille mostra o passo a passo.

Poucas histórias mostram a leitura de braille na tela, e nem toda pessoa cega lê com os dedos: quem quer aprender começa pelo alfabeto. O Braillito, nosso app, ensina o alfabeto com lições curtas que se jogam no celular. Não é uma biblioteca de histórias nem substitui os livros em braille ou a audiodescrição. Se for útil, baixe o app.

Perguntas frequentes

Quem é a Dorinha, da Turma da Mônica?

É a personagem criada por Maurício de Sousa e inspirada em Dorina Nowill, segundo a Fundação Dorina Nowill. Ela explica como as pessoas cegas percebem o mundo e é a protagonista do livro Como Dorinha vê o mundo, lançado em 2019, com 24 páginas em braille e em fonte ampliada. Existe também uma versão com audiodescrição.

Qual é o super-herói cego mais famoso?

O post não faz ranking de fama. O super-herói cego que ele traz é o Demolidor, da Marvel. Na série da Netflix, que estreou em 2015, o advogado Matt Murdock, vivido por Charlie Cox, perdeu a visão na infância e combate o crime à noite. A Toph, de Avatar, é outra personagem cega do post: mestra de dobra de terra, ela ensina o Aang.

Que filmes brasileiros têm um protagonista cego?

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014), de Daniel Ribeiro, tem como protagonista o Leo, um adolescente cego de 15 anos. Ensaio sobre a Cegueira (2008), de Fernando Meirelles, é uma coprodução do Brasil com o Canadá e o Japão. O filme mostra uma epidemia de cegueira, e a mulher que guia o grupo continua enxergando. Na televisão, a novela América tem o Jatobá e a Flô.

Algum personagem cego lê braille?

Em dois casos deste post, sim. O ator Charlie Cox lista a leitura de braille entre as tarefas do Matt Murdock, o Demolidor, e a atriz Aria Mia Loberti falou sobre a técnica de braille da Marie-Laure, de All the Light We Cannot See. Nos outros casos, as fichas e as páginas oficiais não dizem se o personagem lê braille, e por isso o post não afirma. A Dorinha tem um livro impresso em braille, mas as fontes não descrevem a personagem lendo.