Cegos famosos: músicos, atletas e quem lia braille

Os cegos famosos do Brasil vão de um cantador cearense nascido em 1878 a campeões paralímpicos, e no mundo incluem Ray Charles, Stevie Wonder e Borges. Aqui estão 14 pessoas cegas famosas, o que cada uma fez e, quando a fonte conta, se lia braille. Quando a fonte não diz, a gente também avisa.

Em resumo

  • José Álvares de Azevedo, cego, aprendeu braille na França e levou o sistema ao Brasil.
  • Cego Aderaldo (1878-1967), cantador do Ceará, perdeu a visão aos 18 anos e fez da cantoria a sua vida.
  • Jerusa Geber, Terezinha Guilhermina, Ricardinho e Jefinho são nomes do esporte paralímpico brasileiro.
  • Ray Charles, Andrea Bocelli e Joaquín Rodrigo usaram braille; Jorge Luis Borges nunca aprendeu e ditava os textos.
  • Louis Braille, Helen Keller e Dorina Nowill já têm artigo próprio aqui no blog.

Uma nota sobre as palavras. Neste artigo falamos em pessoa cega e pessoa com deficiência visual. Ser cego nem sempre significa não ver nada: muita gente tem baixa visão, tema do artigo sobre baixa visão. Para o termo mais amplo, veja deficiente visual.

Brasileiros na história e na música

José Álvares de Azevedo

José Álvares de Azevedo foi o primeiro professor cego do Brasil, segundo o Ministério da Saúde. Sua família o mandou para a França ainda adolescente, e lá ele aprendeu o braille.

Em 1850, conseguiu uma audiência com o imperador D. Pedro II e a autorização para fundar uma escola para pessoas cegas. O Imperial Instituto dos Meninos Cegos, hoje Instituto Benjamin Constant, foi fundado em 1854. Naquele momento, Álvares de Azevedo já tinha morrido.

O dia do nascimento dele deu origem ao Dia Nacional do Sistema Braille, em 8 de abril. A história completa está em braille no Brasil.

Cego Aderaldo

Aderaldo Ferreira de Araújo nasceu no Crato (CE) em 24 de junho de 1878, viveu a maior parte da vida em Quixadá e morreu em Fortaleza em 29 de junho de 1967. Os dados estão no projeto de lei da Assembleia Legislativa do Ceará e na página do museu de Quixadá.

Antes de cantar, Aderaldo foi aprendiz de carpinteiro, empregado de hotel e trabalhador numa forja. O museu conta que, aos 18 anos, ele perdeu a visão. Ele se angustiava por não ter como sustentar a si e à mãe, e não queria pedir esmola. Nas palavras dele, registradas pelo museu: "uma noite sonhei cantando".

Dali em diante, a viola virou o ofício. Ele cantou em várias cidades do Ceará e, em 1916, em Varzinha (PI), travou a famosa peleja com Zé Pretinho. A cantoria é um gênero poético da literatura oral. O projeto de lei o chama de grande cantador e o cita entre os nomes da literatura de cordel, e propõe o Dia do Cantador em 24 de junho, data do nascimento dele.

Nenhuma das fontes diz se ele lia braille. Ficamos com o que elas contam: um artista da voz e da viola.

Atletas paralímpicos do Brasil

No esporte paralímpico brasileiro há medalhistas com deficiência visual, no atletismo e no futebol de cegos. Os perfis abaixo vêm do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) e da CBDV.

Jerusa Geber

Jerusa Geber é de Rio Branco (AC) e corre na classe T11 do atletismo. Segundo o perfil do CPB, ela nasceu totalmente cega. Fez algumas cirurgias que lhe deram um pouco de visão, mas aos 18 anos voltou a perder a visão por completo.

Conheceu o esporte paralímpico aos 19 anos, a convite de um amigo também com deficiência visual. Em 2019, tornou-se a "primeira atleta cega a correr os 100m abaixo dos 12s". O perfil a registra como recordista mundial dos 100 metros na classe T11, com 11s80.

Em Paris 2024, ganhou ouro nos 100 e nos 200 metros. O CPB soma seis medalhas dela em Jogos Paralímpicos: dois ouros, duas pratas e dois bronzes.

Terezinha Guilhermina

Terezinha Aparecida Guilhermina é de Betim (MG) e também compete na classe T11. O perfil do CPB lista oito medalhas em Jogos Paralímpicos: três ouros, duas pratas e três bronzes.

Fora das Paralimpíadas, são doze medalhas em Mundiais (oito ouros e quatro pratas) e nove em Jogos Parapan-Americanos (oito ouros e uma prata).

Ricardinho e Jefinho

No futebol de cegos, o Brasil soma cinco ouros paralímpicos até Tóquio 2020, segundo o Comitê Paralímpico Internacional. Ricardo Steinmetz Alves, o Ricardinho, é de Osório (RS). Começou a jogar futebol de cegos aos 10 anos e, segundo a CBDV, foi eleito o melhor do mundo três vezes: em 2006, 2014 e 2018.

Jeferson da Conceição Gonçalves, o Jefinho, nasceu em Candeias (BA). Começou na natação, passou pelo atletismo e se encontrou no futebol de cegos aos 12 anos. A CBDV diz que ele foi eleito o melhor jogador do mundo em 2010, e o Comitê Paralímpico Internacional o apresenta como o Pelé paralímpico.

Nos Jogos do Rio 2016, os dois ajudaram o Brasil a conquistar o quarto ouro paralímpico seguido, conta o Comitê Paralímpico Internacional. Veio mais um ouro em Tóquio 2020. Em Paris 2024, a Argentina eliminou o Brasil na semifinal, segundo o mesmo comitê, e a seleção levou o bronze, segundo a CBDV.

Para entender as regras do jogo, veja futebol de cegos. Outro esporte criado para quem tem deficiência visual é o goalball.

Os perfis do CPB e da CBDV não dizem se esses atletas leem braille, e por isso não damos isso como certo.

Músicos e escritores pelo mundo

Ray Charles

Ray Charles nasceu em Albany, na Geórgia (Estados Unidos), e perdeu a visão ainda criança, segundo o Florida Artists Hall of Fame. Em 1937, entrou numa escola estadual para pessoas surdas e cegas em St. Augustine, na Flórida.

Em oito anos ali, ele teve formação musical, dominou o braille e aprendeu piano, órgão, clarinete, trompete e saxofone. A mesma página o chama de gênio do soul.

Stevie Wonder

Stevie Wonder nasceu como Stevland Morris, em Saginaw (Michigan), de acordo com a American Printing House for the Blind. A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos conta que ele perdeu a visão logo depois de nascer.

Em 1963, segundo a American Printing House, o tutor contratado pela gravadora dele listou o material de que ele precisava para estudar: livros em braille, uma máquina de escrever braille Perkins e papel braille, entre outros itens.

No Grammy de 2016, subiu ao palco para entregar um prêmio e o envelope tinha braille. As fontes divergem sobre o que aconteceu ali: a American Printing House diz que ele leu o nome do vencedor no envelope, e a Biblioteca do Congresso conta que ele brincou que ninguém conseguia ler a folha em braille. As duas contam que ele aproveitou o momento para dizer que é preciso tornar tudo acessível a toda pessoa com deficiência.

Andrea Bocelli

O tenor italiano Andrea Bocelli perdeu totalmente a visão aos 12 anos, segundo a Classic FM. A mesma fonte conta que ele aprendeu sozinho a ler música em braille e a tocar piano. Isso não o fez largar outros gostos: continuou andando de bicicleta e a cavalo.

Joaquín Rodrigo

O compositor espanhol Joaquín Rodrigo nasceu em Sagunto (Valência) em 22 de novembro de 1901 e perdeu a visão ainda criança. Os dados vêm do site oficial dele e da Universitat Politècnica de València, que o nomeou doutor honoris causa.

O Concerto de Aranjuez, para violão e orquestra, estreou em 1940, em Barcelona, segundo o site oficial e a universidade, que o chama de o maior sucesso dele.

É o caso mais claro desta lista sobre o braille. O site oficial conta que, para escrever suas composições, Rodrigo sempre usou o braille e depois ditava a obra completa, nota por nota, a um copista. A revisão final era feita com a esposa, Victoria.

Jorge Luis Borges

O escritor argentino Jorge Luis Borges ficou cego aos 55 anos, depois de uma longa perda gradual de visão. Dizem isso o Literary Hub e o El Espectador. Em 1955, foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, de acordo com a Academy of American Poets.

O que importa aqui: Borges nunca aprendeu braille, segundo o Literary Hub. Ele memorizava trechos longos, tinha pessoas que liam para ele e ditava o que escrevia. Boa parte desse trabalho foi da mãe, Leonor. Mesmo cego, publicou quase quarenta livros.

Três nomes que têm artigo próprio

Se você procura personagens de ficção em vez de pessoas reais, veja personagens cegos, da Turma da Mônica ao Demolidor.

Do nome de Dorina ao alfabeto braille

Nem todo mundo desta lista lia braille: José Álvares de Azevedo, Ray Charles, Bocelli, Rodrigo, Helen Keller e Louis Braille usaram o sistema, Stevie Wonder teve material em braille nos estudos, Borges nunca o aprendeu, e de vários outros as fontes não dizem nada. Mas o braille está por trás de muitas dessas histórias, e dá para ver como ele funciona.

Veja o nome Dorina em braille do português: ⠨⠙⠕⠗⠊⠝⠁. A primeira cela, com os pontos 4 e 6, é o sinal de maiúscula. As outras seis são as letras. E assim se escreve braille: ⠃⠗⠁⠊⠇⠇⠑.

Para qualquer outra palavra, use o tradutor de braille. Para entender a cela de seis pontos, veja a cela braille e o alfabeto braille. E, se quiser aprender do zero, leia como aprender braille.

Nem toda pessoa famosa e cega lia braille, e ler uma lista não ensina ninguém a ler com os dedos: para quem quer aprender, o começo é o alfabeto. O Braillito, nosso app, ensina o alfabeto com lições curtas que se jogam no celular. Não é um curso de música nem substitui um professor de braille ou a reabilitação: é uma forma de praticar as letras um pouco a cada dia. Se for útil, baixe o app.

Perguntas frequentes

Quais pessoas famosas são cegas?

No Brasil, estão o cantador Cego Aderaldo, a atleta Jerusa Geber, os jogadores Ricardinho e Jefinho, e Dorina Nowill, que criou a fundação que leva o nome dela. No mundo, os músicos Ray Charles, Stevie Wonder, Andrea Bocelli e Joaquín Rodrigo, o escritor Jorge Luis Borges, Louis Braille, que criou o sistema de leitura, e Helen Keller, que era surdocega.

Quais famosos cegos liam braille?

Joaquín Rodrigo compunha em braille, e Ray Charles aprendeu na escola. Andrea Bocelli aprendeu sozinho a ler música em braille, e Stevie Wonder teve livros e outros materiais em braille nos estudos, segundo a American Printing House. Helen Keller usava uma máquina de escrever braille. José Álvares de Azevedo aprendeu braille na França. Borges, ao contrário, nunca aprendeu: ditava.

Quem trouxe o braille para o Brasil?

José Álvares de Azevedo, o primeiro professor cego do país, segundo o Ministério da Saúde. Ele aprendeu o sistema na França e, em 1850, obteve de D. Pedro II a autorização para fundar uma escola para pessoas cegas. O Imperial Instituto dos Meninos Cegos, hoje Instituto Benjamin Constant, foi fundado em 1854. Os detalhes estão em braille no Brasil.

Quais atletas cegos do Brasil são conhecidos?

No atletismo, Jerusa Geber, com ouro em Paris 2024, e Terezinha Guilhermina, que compete na classe T11 e tem oito medalhas paralímpicas. No futebol de cegos, Ricardinho e Jefinho, eleitos melhores do mundo. Outro esporte pensado para pessoas com deficiência visual é o goalball.