Escrita em braille: o que é e as formas de escrever
A escrita em braille é a escrita em relevo que se lê com a ponta dos dedos: cada letra, número ou sinal de pontuação ocupa uma cela de seis pontos. Você pode escrever à mão, com reglete e punção, numa máquina braille, no computador ou no celular, e uma impressora braille faz o mesmo em grande quantidade. No Brasil, as regras estão na Grafia Braille para a Língua Portuguesa, do Ministério da Educação.
Em resumo
- Cada sinal braille é uma combinação de até seis pontos numa cela de duas colunas e três linhas, numerados de 1 a 6.
- Há cinco formas principais de escrever: reglete e punção, máquina braille, teclado braille no computador ou no celular, linha braille e impressora braille.
- A norma no Brasil é a Grafia Braille para a Língua Portuguesa, do MEC, preparada junto com Portugal.
- O português tem sinais próprios para as vogais acentuadas e para o ç, e cada um ocupa uma cela só.
- Para começar, aprenda o alfabeto e escreva em braille integral, letra por letra. As abreviações ficam para depois.
O que é a escrita braille
O braille é um sistema de escrita, não uma língua: serve para escrever português e muitos outros idiomas. Foi criado por Louis Braille e, segundo a Grafia Braille para a Língua Portuguesa, é "o processo de escrita em relevo mais adotado em todo o mundo". Quando se fala em escrita para cegos, em geral é dele que se trata.
A cela de seis pontos
Tudo acontece dentro da cela braille: um espaço com seis posições, em duas colunas de três. A Grafia numera os pontos "de cima para baixo e da esquerda para a direita". Os pontos 1, 2 e 3 ficam na coluna da esquerda; os pontos 4, 5 e 6, na da direita.
Cada letra é uma combinação desses pontos, e o que conta é a posição. O a é só o ponto 1. O b é o ponto 1 e o ponto 2. O c é o ponto 1 e o ponto 4. Para ver a cela grande, com os números, abra a página da cela braille.
Com seis pontos dá para formar 63 sinais diferentes. A Grafia lembra que alguns especialistas contam também a cela vazia como sinal, e aí o sistema chega a 64. Na prática, a cela vazia é o espaço entre as palavras.
Veja a palavra escrita, letra por letra (e, s, c, r, i, t, a):
⠑⠎⠉⠗⠊⠞⠁
Por que é uma escrita tátil
Os pontos ficam em relevo no papel, e quem lê passa a ponta dos dedos sobre eles. Por isso o braille é uma escrita tátil: a informação está na forma, não na cor da tinta. A escrita comum, que se lê com os olhos, a Grafia chama de escrita em tinta. Um texto pode passar da tinta para o braille e do braille para a tinta. Esse é o trabalho de transcritores e revisores.
A mesma cela vale para qualquer ferramenta. Uma letra escrita com a punção, na máquina ou no celular tem os mesmos pontos. O que muda é como os pontos chegam ao papel ou à tela.
As formas de escrever em braille
A Grafia resume assim: a escrita braille se faz "ponto a ponto na reglete ou letra a letra na máquina braille", e também no computador. Hoje há cinco caminhos principais, e cada um tem um guia próprio aqui no blog.
À mão, com reglete e punção
A reglete é uma placa de metal ou plástico com fileiras de celas vazadas, e o papel vai preso dentro dela. Com a punção, uma ponta de metal com cabo, você afunda os pontos um a um. O relevo aparece do outro lado da folha. Por isso se escreve da direita para a esquerda, com as letras espelhadas; ao virar o papel, o texto fica na ordem certa. A reglete é pequena, leve e não precisa de energia. O passo a passo, com a tabela das letras invertidas, está no guia de reglete e punção.
Na máquina braille
A máquina braille tem seis teclas, uma para cada ponto, além das teclas de espaço, de voltar e de mudar de linha. Você aperta ao mesmo tempo as teclas dos pontos de uma letra, e a cela inteira sai de uma vez. Não há espelho: o texto sai na posição de leitura, e você confere sem virar a folha. Como usar, que papel comprar e como cuidar dela estão no guia da máquina braille.
No computador e no celular, com teclado braille
No computador, alguns programas deixam usar seis teclas do teclado comum (S, D, F, J, K e L) como as seis teclas da máquina. O Braille Fácil, por exemplo, tem um simulador de teclado braille. No celular, o iPhone e o Android trazem um teclado braille na tela, que funciona com o leitor de tela ligado. Você toca as combinações de pontos com os dedos, e o texto sai em tinta, pronto para uma mensagem ou um e-mail. A configuração está em teclado braille, e o que é um leitor de tela, em leitor de tela.
Na linha braille
A linha braille é um aparelho eletrônico com uma fileira de celas em que pinos sobem e descem para formar os pontos. Ela mostra em braille o que está na tela do computador ou do celular, e muitos modelos têm teclas braille para escrever. É escrita sem papel: o texto fica no aparelho, e você corrige antes de imprimir ou enviar. Tamanhos, conexão e preços estão em linha braille.
Na impressora braille
Para muitas páginas, o caminho é a impressora braille. Você digita ou importa o texto em tinta, um programa converte para braille e a impressora marca os pontos no papel. Algumas imprimem dos dois lados da folha, o chamado interponto. Um programa brasileiro para isso é o Braille Fácil, do Projeto Dosvox, do NCE/UFRJ. A página do programa informa que os direitos são do Instituto Benjamin Constant e que "O Braille Fácil é distribuído gratuitamente." Como funcionam as impressoras está em impressora braille.
A norma no Brasil: a Grafia Braille para a Língua Portuguesa
Quem escreve braille em português no Brasil segue a Grafia Braille para a Língua Portuguesa, do Ministério da Educação. Ela foi aprovada pela Portaria nº 2.678, de 24 de setembro de 2002, que recomendou o seu uso em todo o país a partir de 1º de janeiro de 2003. O texto da portaria está reproduzido na própria Grafia.
A Grafia não foi feita só no Brasil. Ela é fruto do trabalho conjunto da Comissão Brasileira do Braille e da Comissão de Braille de Portugal, com base no Protocolo de Colaboração Brasil/Portugal, assinado em Lisboa em 25 de maio de 2000. A apresentação do MEC fala em contribuir para a unificação da grafia braille nos países de língua portuguesa.
A própria Grafia se define como um "documento normatizador e de consulta". Foi pensada para professores, transcritores, revisores e usuários do braille. Ali estão o alfabeto, os acentos, as maiúsculas, os números, a pontuação e regras para a disposição do texto na página.
Ela trata do braille integral, ou grau 1, em que cada caractere da escrita comum tem o seu sinal. O braille abreviado, ou grau 2, em que uma cela pode valer por várias letras ou por uma palavra inteira, tem regras próprias.
O texto oficial pode ser baixado em PDF no site do Instituto Benjamin Constant, no gov.br. As citações deste post vêm da 2ª edição brasileira, de 2006, numa cópia da Universidade Federal do Ceará.
Os sinais próprios do português
A Grafia explica que, em português, "quase todos os sinais conservam a sua significação original". As exceções são algumas vogais acentuadas e outros símbolos, que ganharam sinais exclusivos. Cada letra acentuada é uma cela só: o acento não é um sinal à parte.
| Letra | Cela | Pontos |
|---|---|---|
| á | ⠷ | 1, 2, 3, 5 e 6 |
| à | ⠫ | 1, 2, 4 e 6 |
| â | ⠡ | 1 e 6 |
| ã | ⠜ | 3, 4 e 5 |
| é | ⠿ | 1, 2, 3, 4, 5 e 6 |
| ê | ⠣ | 1, 2 e 6 |
| í | ⠌ | 3 e 4 |
| ó | ⠬ | 3, 4 e 6 |
| ô | ⠹ | 1, 4, 5 e 6 |
| õ | ⠪ | 2, 4 e 6 |
| ú | ⠾ | 2, 3, 4, 5 e 6 |
| ü | ⠳ | 1, 2, 5 e 6 |
| ç | ⠯ | 1, 2, 3, 4 e 6 |
Repare no é: ele usa os seis pontos, a cela cheia. E o ç é o c com mais três pontos (2, 3 e 6).
Um exemplo com maiúscula, cedilha e til, a palavra Ação: ⠨⠁⠯⠜⠕. São cinco celas: o sinal de maiúscula, o a, o ç, o ã e o o.
Maiúsculas, números e pontuação
O braille não tem letras maiúsculas com outro desenho. Ele usa sinais que vêm antes da letra, e o mesmo vale para os números.
- Maiúscula: o sinal dos pontos 4 e 6 (⠨) vai logo antes da letra. Para uma palavra toda em maiúsculas, o mesmo sinal vai duas vezes antes da primeira letra. As siglas, como ONG, também levam o sinal duplo.
- Números: o sinal de número, pontos 3, 4, 5 e 6 (⠼), seguido das letras de a a j, que valem de 1 a 0. Num número de vários algarismos, "só o primeiro é precedido deste sinal". O 15 se escreve ⠼⠁⠑. Datas, intervalos e decimais estão em números em braille, e você pode converter qualquer número na página de números braille.
A pontuação básica da Grafia:
| Sinal | Cela | Pontos |
|---|---|---|
| vírgula | ⠂ | 2 |
| ponto e vírgula | ⠆ | 2 e 3 |
| dois-pontos | ⠒ | 2 e 5 |
| ponto final | ⠄ | 3 |
| interrogação | ⠢ | 2 e 6 |
| exclamação | ⠖ | 2, 3 e 5 |
| hífen | ⠤ | 3 e 6 |
Repare que esses sinais usam só os pontos de baixo da cela (2, 3, 5 e 6). Alguns têm mais de uma função: na Grafia, o ponto 3 é o ponto final e também o apóstrofo. E a pontuação fica colada à palavra. A regra diz que esses sinais "não devem separar-se da palavra a que dizem respeito".
O que aprender primeiro
Para quem começa, seja uma família que acompanha alguém, seja um adulto que perdeu a visão, a ordem ajuda mais que a ferramenta:
- A cela e os números dos pontos. Sem isso, nenhuma tabela faz sentido. Comece pela cela braille.
- As letras de a a j. Usam só os quatro pontos de cima da cela e são a base do resto. Com o sinal de número, elas também viram os algarismos.
- O resto do alfabeto, os acentos e o ç. A ordem por séries, com o que cada uma acrescenta, está em como aprender braille.
- Maiúscula, número e a pontuação básica. Com esses três, você já escreve frases completas.
- Uma forma de escrever. A reglete serve para anotar à mão em qualquer lugar. A máquina serve para textos mais longos no papel. O celular serve para mensagens. Não é preciso aprender todas.
- Ler o que escreveu. Escrever e ler andam juntos. Veja como ler braille, e confira palavras soltas no tradutor braille.
Para professores e famílias, uma dica da própria Grafia. No glossário, ela registra os pontos a mais ou a menos numa letra, um erro comum na reglete e na máquina. Vale revisar letra por letra antes de passar para palavras longas. E comece pelo braille integral: o abreviado vem quando as letras estiverem firmes.
Antes de escrever, o alfabeto
Reglete, máquina, teclado ou impressora mudam a ferramenta, mas as celas são as mesmas, e é por elas que se começa; vale lembrar que nem toda pessoa cega ou com baixa visão lê braille. Se você está começando, tenha à mão o alfabeto braille e a página da cela braille. O Braillito, nosso app, ensina o alfabeto com lições curtas que se jogam no celular. Não é uma reglete nem substitui um professor de braille: é uma forma de praticar as letras todos os dias. Se for útil, baixe o app.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre escrita braille e escrita em tinta?
A escrita braille é feita com pontos em relevo e lida com os dedos. Escrita em tinta é o nome que a Grafia dá à escrita comum, lida com os olhos. O transcritor passa um texto de uma para a outra, e o revisor confere o braille.
Dá para escrever em braille no celular?
Sim. O iPhone e o Android têm teclado braille na tela, que funciona com o leitor de tela ligado. Você toca as combinações de pontos e o texto aparece em tinta. A configuração passo a passo está em teclado braille.
Por que na reglete se escreve da direita para a esquerda?
Porque a punção afunda o papel e o relevo sai do outro lado. Ao virar a folha para ler, a ordem se inverte e o texto fica certo. Na máquina braille e no teclado isso não acontece. O passo a passo está em reglete e punção.
O braille em português é o mesmo no Brasil e em Portugal?
A Grafia Braille para a Língua Portuguesa foi preparada em conjunto pelas comissões de braille dos dois países, com base num protocolo assinado em Lisboa em 2000. Este post segue a edição brasileira, do MEC.
Preciso aprender o braille abreviado?
Para começar, não. A Grafia trata do braille integral, em que cada caractere tem o seu sinal. O abreviado, em que uma cela vale por várias letras ou por uma palavra, pode vir depois. A diferença está explicada em como ler braille.
