Jogos para cegos: xadrez, cartas, dados e videogames

Jogos para cegos vão do xadrez com casas em relevo ao baralho com braille, dos dados e tabuleiros adaptados em casa aos videogames que se jogam pelo som. Na escola, o goalball e o futebol de cegos são esportes de bola feitos para quem tem deficiência visual. Neste guia você vê como cada um funciona e como adaptar em casa os que você já tem.

Em resumo

  • Xadrez: as regras da FIDE preveem um tabuleiro adaptado, com casas pretas levemente elevadas e peças que se encaixam em furos, e jogadas anunciadas em voz alta.
  • Cartas, dados e tabuleiro: dá para adaptar em casa com etiquetas em braille, relevo e cores que contrastam. Quem não lê braille pode combinar marcas táteis.
  • Videogames: alguns têm menus lidos pelo leitor de tela, mapa sonoro e audiodescrição, três recursos que o Game Accessibility Guidelines descreve. Nem todo jogo os traz.
  • Educação Física: o goalball e o futebol de cegos são modalidades da CBDV, e o manual do CPB traz atividades de iniciação com bola com guizo.
  • Braille jogando: no Braillito, os jogos ficam dentro das lições. Veja onde.

Xadrez: como uma pessoa cega joga

O xadrez tem regras próprias para quem tem deficiência visual. A FIDE, a federação internacional de xadrez, dedica a elas o Apêndice D das Leis do Xadrez. A IBSA, federação internacional de esportes para pessoas com deficiência visual, descreve o mesmo jogo adaptado. O resumo abaixo vem dessas duas páginas.

O tabuleiro e as peças adaptados

Quando um jogador com deficiência visual enfrenta um jogador que enxerga, qualquer um dos dois pode pedir dois tabuleiros: quem enxerga joga em um tabuleiro comum, e o outro, em um tabuleiro especial. Segundo a FIDE, esse tabuleiro tem:

  • Tamanho: pelo menos 20 cm por 20 cm.
  • Casas pretas levemente elevadas. A IBSA fala em 3 a 4 mm de relevo.
  • Um furo de fixação em cada casa, para a peça não sair do lugar com o toque.
  • Peças com um pino na base, que entra no furo, no desenho Staunton, com as pretas marcadas de forma especial. Na descrição da IBSA, as pretas levam um pino na cabeça.

Pelo tato, a pessoa descobre se a casa é preta ou branca, se a peça é preta ou branca e, pela forma, se é peão, torre, bispo, cavalo, rainha ou rei.

Como as jogadas são anunciadas

Cada jogador anuncia a própria jogada em voz alta. O adversário repete e a executa no tabuleiro dele. Na promoção do peão, o jogador diz qual peça escolheu.

Para a fala ficar o mais clara possível, a FIDE sugere nomes no lugar das letras das colunas: Anna para a, Bella para b, Cesar para c, e assim por diante. Salvo decisão do árbitro, as fileiras levam números em alemão, de eins a acht. É uma sugestão: o organizador, depois de consultar o árbitro, pode adaptar as regras às circunstâncias locais. Vale perguntar como a fala será combinada no torneio.

As outras regras do Apêndice D cuidam do toque e do relógio:

  • Peça tocada e jogada feita. No tabuleiro adaptado, a peça conta como tocada quando sai do furo. A jogada conta como feita quando a peça entra em outro furo e a jogada é anunciada; só então o relógio do adversário é acionado.
  • Erro de fala. Corrige-se na hora, antes de acionar o relógio do adversário.
  • Relógio. A FIDE aceita um relógio que anuncia o tempo e o número de jogadas. Aceita também um relógio analógico com um ponto em relevo a cada cinco minutos, dois a cada quinze e uma bandeirinha que se sente com o dedo.
  • Anotação. A partida é anotada em braille, à mão ou gravada.
  • Assistente. A pessoa com deficiência visual pode usar um assistente, que faz as jogadas no tabuleiro do adversário, anuncia as jogadas, anota a partida e aciona o relógio.

Todo mundo joga junto

A IBSA explica que não há classificação no xadrez: todos os jogadores competem entre si, qualquer que seja a visão. Isso é possível por causa das adaptações às regras da FIDE.

Xadrez no Brasil

O Brasil tem uma federação própria, a Federação Brasileira de Xadrez para Deficientes Visuais (FBXDV), que a UFJF cita ao receber o fundador dela em um seminário na faculdade de Educação Física, em agosto de 2025. Na mesma notícia, a universidade informa que Juiz de Fora (MG) sediaria pela primeira vez a Copa Brasil de Xadrez para deficientes visuais, de 15 a 17 de agosto de 2025, em um evento "aberto a todos", com entrada gratuita.

Um calendário de eventos de 2025, publicado em um site oficial de Salvador (BA), confirma essa data e lista a Copa em etapas regionais e finais, para pessoas com deficiência visual e com baixa visão. As datas mudam a cada ano. Para as do ano atual, confirme com a FBXDV.

Cartas, dados e jogos de tabuleiro em casa

Não encontramos norma nem página oficial que descreva como adaptar cada um destes jogos. O que segue são ideias práticas, que seguem o princípio do xadrez adaptado: relevo, encaixe, marca tátil e contraste. Teste com quem vai jogar e ajuste.

Baralho

Para adaptar o seu baralho:

  • Cole no canto de cada carta uma etiqueta em braille curta, com o valor e o naipe.
  • Para as cartas numéricas, use o sinal de número antes do algarismo. Explicamos em números em braille.
  • Para quem ainda não lê braille, combine um código tátil: um número diferente de pontos adesivos para cada naipe.
  • Se o jogo permitir, cada jogador diz em voz alta a carta que joga, como no xadrez.

Dados e dominó

Um dado de pontos pintados não serve ao tato. Troque por um de pontos em relevo ou cole em cada face uma etiqueta com o número em braille. Na Grafia Braille para a Língua Portuguesa, os algarismos de 1 a 0 usam as dez primeiras letras do alfabeto, precedidas do sinal de número, a cela de pontos 3, 4, 5 e 6. Quando o número tem dois ou mais algarismos, a norma diz que "só o primeiro é precedido deste sinal". As celas da tabela saíram do tradutor do Braillito, que segue essa norma.

Número Braille Como se escreve
1 ⠼⠁ sinal de número + a
2 ⠼⠃ sinal de número + b
3 ⠼⠉ sinal de número + c
4 ⠼⠙ sinal de número + d
5 ⠼⠑ sinal de número + e
6 ⠼⠋ sinal de número + f
12 ⠼⠁⠃ um só sinal de número, antes do primeiro algarismo

O dominó segue a mesma lógica: se as peças são lisas, cole um ponto adesivo em relevo sobre cada ponto pintado e marque um dos lados de cada peça. Para outros números, use o tradutor braille ou a página números braille.

Ludo, dama e outros jogos de percurso

No ludo, o que mais pesa é distinguir as cores. Escreva o nome de cada cor em braille na casa de saída e dê a cada jogador um peão com forma ou textura própria. As celas abaixo saíram do mesmo tradutor.

Cor Braille
vermelho ⠧⠑⠗⠍⠑⠇⠓⠕
azul ⠁⠵⠥⠇
verde ⠧⠑⠗⠙⠑
amarelo ⠁⠍⠁⠗⠑⠇⠕

O caminho também pode ganhar relevo, com um barbante colado nas bordas das casas. E peças que se encaixam em furos, como no xadrez adaptado, não saem do lugar com um toque. A dama usa o tabuleiro do xadrez, então serve a mesma adaptação: casas escuras em relevo e peças de um dos lados com uma marca.

Passo a passo para adaptar um jogo

  1. Escolha um jogo de poucas regras e de peças que ficam paradas: tabuleiro, cartas, dados.
  2. Pergunte à pessoa o que ela prefere: braille, marcas táteis ou a ajuda da voz. Nem toda pessoa cega lê braille; explicamos as situações em deficiente visual.
  3. Dê a cada tipo de peça um relevo próprio, e marque as peças de um dos lados.
  4. Etiquete cartas e casas com braille curto, sempre no mesmo lugar.
  5. Use cores que contrastam, como preto e branco. Isso ajuda quem tem baixa visão e quem joga junto.
  6. Prenda o tabuleiro, para ele não escorregar, e prefira peças que se encaixam.
  7. Combine que cada jogador fala em voz alta a jogada ou a carta, como no xadrez.

Videogames para pessoas cegas

Há dois caminhos. Um são os jogos feitos para se jogar só pelo som, os audiojogos. O outro são jogos comuns que oferecem recursos de acessibilidade. O Game Accessibility Guidelines é um guia de referência feito por estúdios, especialistas e acadêmicos para quem desenvolve jogos. Estes são os recursos que ele descreve para quem tem pouca ou nenhuma visão:

  • Menus e textos que falam. O leitor de tela lê em voz alta todo o texto de um aplicativo. Segundo o guia, ele, ou uma narração do próprio jogo, é essencial para quem tem pouca ou nenhuma visão residual. Jogos de texto e jogos baseados em menus são os mais indicados.
  • Mapa sonoro tipo sonar. Um pulso sonoro que avisa onde estão os objetos e os inimigos importantes. O guia diz que isso ajuda a percorrer ambientes 3D complexos quem tem muito pouca visão residual.
  • Audiodescrição. Uma faixa de áudio extra que descreve o que acontece na imagem. Nos jogos, apareceu primeiro em trailers e hoje também aparece em cenas de história e em alguns momentos do roteiro. Explicamos o recurso em audiodescrição.
  • Ação que já se joga pelo som. Em alguns jogos comuns, o próprio jogo pode ser jogado pelo som, e o que falta é deixar os menus acessíveis ao leitor de tela. O guia cita um jogo de luta nessa situação.

O guia classifica os três recursos como de nível avançado, e nem todo jogo os traz. Antes de escolher, veja na descrição do jogo se ele fala os menus, se tem mapa sonoro ou audiodescrição e teste com fones de ouvido. No celular, ative o leitor de tela do aparelho: o VoiceOver, no iPhone, ou o TalkBack, no Android.

Educação Física: o que jogar com um aluno cego

Na aula, o objetivo é que todos joguem juntos. Os esportes da Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV) mostram caminhos: a entidade lista o goalball e o futebol de cegos entre as suas modalidades.

  • Goalball. Segundo o Manual de Iniciação ao Esporte Paralímpico: Goalball, do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), os atletas jogam vendados, para que ninguém tenha vantagem. A bola tem guizo, e a quadra é marcada com barbante e fita para os atletas sentirem o relevo e se localizarem. As regras completas estão em goalball.
  • Futebol de cegos. Veja o esporte em futebol de cegos.
  • Atividades de iniciação. O manual do CPB organiza as atividades por objetivo, como percepção auditiva, orientação espacial e manejo de corpo. Em uma variação, os alunos se chamam pelo barulho do guizo, para se familiarizar com o som da bola. Em outra, cada aluno lança a bola em direção ao chamado do professor. Uma dica do manual: um barbante esticado com cones pode simular a trave.

Para o professor, alguns cuidados ajudam em qualquer jogo: descreva o espaço antes de começar, mantenha a quadra livre, use sinais sonoros (a voz, palmas, um guizo) e pergunte ao aluno o que funciona para ele.

Há também um serviço do Instituto Benjamin Constant (IBC). Na página do gov.br, o IBC informa que produz material didático e paradidático "voltado à educação e lazer das pessoas com deficiência visual". Escolas da rede pública, bibliotecas públicas e instituições sem fins lucrativos que atendem esse público podem pedir o material, e a página diz que o serviço é gratuito para o cidadão. O pedido é feito pela instituição e passa por avaliação. A página não diz se a listagem tem jogos: pergunte ao IBC pelo contato do serviço.

Para marcar cartas, dados e peças, primeiro o alfabeto

Quem quer praticar braille jogando encontra, no Braillito, jogos dentro das lições e ferramentas como o dicionário e o tradutor.

Marcar uma carta, um dado ou uma casa com braille só ajuda quem lê braille, e nem toda pessoa cega lê; mas quem quer escrever as marcas, ou conferir as de outra pessoa, começa pelo alfabeto braille. O Braillito, nosso app, ensina o alfabeto com lições curtas que se jogam no celular. Não é um jogo de tabuleiro adaptado nem substitui a reglete, o professor de braille ou o jogo com outras pessoas: é um jeito de praticar as letras e os números um pouco a cada dia. Se for útil, baixe o app.

Perguntas frequentes

Como uma pessoa cega joga xadrez?

Em um tabuleiro adaptado: as casas pretas são levemente elevadas, cada casa tem um furo e as peças têm um pino que se encaixa nele. As peças pretas levam uma marca. Cada jogador anuncia a jogada em voz alta, o adversário repete, e a partida é anotada em braille, à mão ou gravada. Pelas regras da FIDE, quem tem deficiência visual também pode usar um relógio falante ou tátil e um assistente.

Quais jogos de tabuleiro dá para adaptar em casa?

Quase todos os de poucas regras: xadrez, dama, ludo, baralho, dados e dominó. A receita é a mesma: relevo nas peças, peças que se encaixam, etiquetas em braille ou marcas táteis, cores que contrastam e jogadas ditas em voz alta. Se a pessoa não lê braille, combine um código tátil.

Existem videogames para pessoas cegas?

Sim. Há jogos feitos para se jogar pelo som e jogos comuns com recursos de acessibilidade, como menus lidos pelo leitor de tela, mapa sonoro e audiodescrição. Nem todo jogo os traz, então confira a descrição antes de escolher.

O que jogar na Educação Física com um aluno cego?

Goalball e futebol de cegos são duas modalidades da CBDV, e as atividades de iniciação do manual do CPB servem de ponto de partida: usam bola com guizo, a voz do professor e um espaço marcado para sentir ao toque. Descreva o espaço antes de começar e pergunte ao aluno o que funciona para ele.