Etiquetas em braille: roupas, escola e como fazer

Etiquetas em braille são rótulos com pontos em relevo que deixam reconhecer pelo tato objetos que, ao toque, parecem iguais: o pote de sal e o de açúcar, a camisa azul e a preta, o caderno de Matemática e o de Português. Dá para fazer em casa, com reglete e punção e papel adesivo, ou com rotuladora, máquina ou impressora braille. No Brasil, nenhuma lei federal obriga braille na etiqueta das roupas: há leis no Piauí e na Paraíba, e a Anvisa exige o nome do remédio em braille na caixa.

Em resumo

  • Uma etiqueta em braille serve para distinguir pelo tato o que tem o mesmo formato: potes, roupas, caixas de remédio, material escolar, botões de aparelhos.
  • Roupas: não há lei federal. O PL 3529/2024 ainda está nas comissões da Câmara. O Piauí e a Paraíba têm leis próprias, com alcances diferentes.
  • Remédios: a RDC nº 768/2022 da Anvisa exige o nome do medicamento em braille na embalagem secundária, a caixa.
  • Como fazer: passe o texto pelo tradutor braille, confira cada letra no alfabeto braille e escreva com reglete, rotuladora, máquina ou impressora.
  • Na prática: texto curto, sempre no mesmo lugar do objeto e com letra grande ao lado. E lembre que nem toda pessoa cega lê braille.

Onde uma etiqueta em braille ajuda

Muita coisa em casa só se distingue pela cor ou pelo que está escrito em tinta. Para quem é cego, e às vezes para quem tem baixa visão, isso não basta. Uma etiqueta com uma ou duas palavras resolve.

  • Cozinha e despensa. Potes iguais de sal, açúcar, farinha e café; latas do mesmo tamanho; temperos em vidrinhos idênticos.
  • Roupas. A cor e o tamanho de cada peça, para combinar a roupa sem pedir ajuda. Aqui a etiqueta precisa aguentar a lavagem.
  • Remédios. A caixa já vem com o nome em braille, como explicamos abaixo. O frasco, a cartela solta ou o remédio guardado fora da caixa, não.
  • Escola. O nome do aluno, os cadernos, as pastas, o estojo e o armário. Com as coisas etiquetadas, a criança cega encontra o que é seu sem depender dos colegas.
  • Casa e trabalho. Botões do micro-ondas e da máquina de lavar, chaves, pastas de documentos, prateleiras e gavetas.

Fora de casa, o braille aparece em placas de elevador, corrimão e banheiro, e no cardápio de bares e restaurantes, cada um com as suas regras.

O que diz a lei sobre etiquetas em braille

Não existe no Brasil uma lei que obrigue etiqueta em braille em todos os produtos. As regras que encontramos são pontuais: leis estaduais para roupas, como as do Piauí e da Paraíba, e uma norma da Anvisa para remédios.

Roupas: o projeto federal ainda tramita

O Projeto de Lei 3529/2024, do deputado Reimont, quer obrigar as empresas têxteis de todo o país a identificar as roupas em braille ou outro meio acessível, com QR Code. Em 2025, a Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência aprovou um substitutivo do relator Amom Mandel: a etiqueta teria cor, composição, tamanho e instruções de lavagem, e as empresas teriam dez anos para se adaptar.

O texto ainda precisa passar por outras comissões da Câmara e pelo Senado. Na consulta aos dados abertos da Câmara em novembro de 2026, o projeto aguardava parecer na Comissão de Defesa do Consumidor. Enquanto ele não vira lei, nenhuma regra nacional obriga a etiqueta em braille na roupa.

Piauí: a lei de 2021 e o STF

A Lei nº 7.465, de 14 de janeiro de 2021, do Piauí, obriga as empresas do setor têxtil a identificar as peças que produzem com etiqueta em braille ou outro meio acessível, com pelo menos a cor e o tamanho, sem cobrar mais por isso. A multa prevista é de 2.000 UFIRs do Piauí, em dobro na reincidência.

A lei foi questionada no Supremo. Em junho de 2023, no julgamento da ADI 6989, o plenário do STF a manteve, mas tirou do seu alcance a indústria têxtil sediada fora do Piauí. Na prática, ela vale para quem fabrica roupa no estado.

Paraíba: a responsável é a loja

A Lei nº 13.719, de 5 de junho de 2025, da Paraíba, começa assim: "É obrigatória a utilização do sistema Braille em etiquetas". Vale para as roupas vendidas no estado, e a etiqueta precisa informar pelo menos o preço, a cor, o tamanho e a natureza da peça.

A diferença em relação ao Piauí é quem responde: a empresa que vende, sem prejuízo do fabricante. O consumidor não pode pagar mais pela etiqueta, as microempresas e as empresas de pequeno porte estão dispensadas, e quem fiscaliza é o Procon-PB. O prazo de adaptação foi de 180 dias a partir da publicação, em junho de 2025.

Remédios: o nome na caixa

Para remédios, a regra é nacional. A RDC nº 768, de 12 de dezembro de 2022, da Anvisa, manda que a embalagem secundária dos medicamentos entregues ao usuário, a caixa, traga em braille o nome do medicamento ou a sua DCB, a Denominação Comum Brasileira do princípio ativo. Quando a mesma empresa tem remédios com o mesmo princípio ativo, entra também a concentração, para distinguir um do outro. O braille segue as diretrizes da Comissão Brasileira de Braille e pode ficar em qualquer face da caixa.

Quando falta espaço, a empresa apresenta uma justificativa técnica, e a concentração e o SAC podem ir para um QR Code. O nome, não: "Permanece obrigatória a identificação do medicamento pelo nome ou DCB pelo sistema Braille".

A exigência é para a caixa. A cartela e o frasco que vão dentro dela ficam fora dessa regra, e é aí que uma etiqueta feita em casa ajuda, por exemplo num remédio guardado fora da embalagem. Se tiver dúvida sobre qual remédio é qual, confirme com o farmacêutico.

Como fazer uma etiqueta em braille, passo a passo

  1. Escolha o texto. Uma ou duas palavras bastam: sal, azul, Ana. Escreva a palavra inteira, sem abreviar, e deixe de fora o que não ajuda a distinguir o objeto.
  2. Passe o texto pelo tradutor. Digite no tradutor braille e veja as celas. Confira cada letra no alfabeto braille e os algarismos em números em braille. Atenção às letras com acento e ao ç, que têm cela própria.
  3. Escolha o material. Para potes e pastas, papel adesivo mais grosso, porque os pontos em papel fino amassam logo. Para a cozinha, a fita plástica da rotuladora aguenta melhor a umidade. Para roupa, uma etiqueta que resista à lavagem, costurada sempre no mesmo lugar.
  4. Marque os pontos. Com uma das ferramentas abaixo.
  5. Confira com o dedo. Cada ponto precisa estar firme. Um ponto a menos muda a letra: entre a e b, a diferença é um ponto só. Se puder, peça a alguém que lê braille para conferir.
  6. Cole sempre no mesmo lugar. Na tampa, por exemplo, ou no lado direito do pote. Assim a mão encontra a etiqueta sem procurar.

Com reglete e punção

É a ferramenta mais barata. Você prende o papel adesivo na reglete e marca cada ponto com o punção. Na reglete tradicional, o ponto sai do outro lado do papel, então se escreve da direita para a esquerda; na reglete positiva, o ponto sai do lado que se lê e a escrita vai da esquerda para a direita. O passo a passo está em reglete e punção.

Com rotuladora braille

Existem rotuladoras que gravam braille em fita plástica adesiva: você escolhe cada letra e o aparelho marca os pontos na fita. É prática para muitas etiquetas, como os potes de uma despensa inteira. Não indicamos marcas; antes de comprar, confira se o aparelho tem as letras acentuadas e o ç do braille em português.

Com máquina ou impressora braille

Na máquina braille, você escreve em papel adesivo e recorta depois; para quem já tem uma em casa ou na escola, é mais rápido que a reglete. Para dezenas de etiquetas, como as de uma escola ou de uma loja, a impressora braille imprime direto do computador, mas custa bem mais e costuma ficar em escolas, bibliotecas e instituições.

Palavras prontas para etiquetas

As celas abaixo saíram do tradutor do Braillito, que segue a Grafia Braille para a Língua Portuguesa, a norma do MEC para o braille em português. Use como modelo e passe qualquer outra palavra pelo tradutor braille.

Palavra Braille Onde usar
sal ⠎⠁⠇ Cozinha
açúcar ⠁⠯⠾⠉⠁⠗ Cozinha
café ⠉⠁⠋⠿ Cozinha
arroz ⠁⠗⠗⠕⠵ Cozinha
feijão ⠋⠑⠊⠚⠜⠕ Cozinha
farinha ⠋⠁⠗⠊⠝⠓⠁ Cozinha
óleo ⠬⠇⠑⠕ Cozinha
orégano ⠕⠗⠿⠛⠁⠝⠕ Cozinha
azul ⠁⠵⠥⠇ Roupa, cor
preto ⠏⠗⠑⠞⠕ Roupa, cor
branco ⠃⠗⠁⠝⠉⠕ Roupa, cor
vermelho ⠧⠑⠗⠍⠑⠇⠓⠕ Roupa, cor
M ⠨⠍ Roupa, tamanho
G ⠨⠛ Roupa, tamanho
38 ⠼⠉⠓ Roupa, tamanho
42 ⠼⠙⠃ Roupa, tamanho
Ana ⠨⠁⠝⠁ Escola, nome
Pedro ⠨⠏⠑⠙⠗⠕ Escola, nome
caderno ⠉⠁⠙⠑⠗⠝⠕ Escola
Matemática ⠨⠍⠁⠞⠑⠍⠷⠞⠊⠉⠁ Escola
6º ⠼⠖⠕ Escola, ano

Repare em três coisas na tabela: café tem quatro celas, não cinco; M e Ana começam com uma cela a mais; e 38 também. São as três regras que explicamos a seguir.

Maiúsculas, acentos e números na etiqueta

Três regras da Grafia resolvem quase toda etiqueta:

  • Maiúscula. A letra maiúscula é a minúscula precedida do sinal de maiúscula, ⠨, pontos 4 e 6. Se a palavra inteira está em maiúsculas, o sinal vai duas vezes antes da primeira letra. Escreva como escreveria em tinta: maiúscula no nome próprio, minúscula no resto. Cada maiúscula é uma cela a mais na etiqueta.
  • Acentos e ç. No braille em português, a letra acentuada não é a letra mais um acento: ela tem cela própria. O é de café é uma cela só, com os seis pontos; o ã de feijão e o ç de açúcar também têm a sua.
  • Números. O sinal de número, ⠼, pontos 3, 4, 5 e 6, vai antes do primeiro algarismo, e os algarismos usam as celas das letras de a a j. Por isso 38 é o sinal de número seguido de c e h. Nos ordinais, como 6º, o algarismo desce para a parte de baixo da cela e vem seguido da terminação o.

A numeração dos pontos está em cela braille. Para preços, como pede a lei da Paraíba, e para símbolos e abreviaturas, use o tradutor braille e confira o resultado com quem lê braille. Como o braille chegou ao país e qual é a norma de hoje, contamos em braille no Brasil.

Dicas para etiquetas que funcionam

  • Menos é mais. Cada letra é uma cela, e cada cela ocupa espaço. Sal cabe em qualquer tampa; uma frase, não.
  • Mesmo lugar, sempre. Se todas as etiquetas ficam na tampa, a mão não precisa procurar.
  • Tinta grande ao lado. Escreva também em letra grande e com bom contraste, como preto no branco. Ajuda quem tem baixa visão e quem divide a casa.
  • Nem toda pessoa cega lê braille. Quem perdeu a visão já adulto nem sempre aprendeu, e há quem prefira marcas táteis sem letras: um elástico na tampa, um botão costurado na roupa, uma fita de textura diferente. Pergunte à pessoa o que funciona para ela. Explicamos as diferentes situações em deficiente visual.
  • Troque quando gastar. Os pontos achatam com o uso e com a lavagem. Se uma letra ficou duvidosa, refaça a etiqueta.
  • Na escola, um padrão só. Combine com o professor que acompanha o aluno qual texto e qual lugar usar, para que as etiquetas sigam a mesma lógica em casa e na sala.

Para escrever a etiqueta, primeiro o alfabeto

Com o tradutor, qualquer pessoa copia as celas de uma palavra. Para saber se a etiqueta ficou certa, porém, é preciso reconhecer as letras: um ponto fora do lugar troca sal por outra coisa.

Uma etiqueta em braille só serve para quem lê braille, e nem toda pessoa cega lê; mas quem quer escrever e conferir as próprias etiquetas começa pelo alfabeto braille. O Braillito, nosso app, ensina o alfabeto com lições curtas que se jogam no celular. Não é uma rotuladora nem substitui a reglete ou o professor de braille: é um jeito de praticar as letras um pouco a cada dia. Se for útil, baixe o app.

Perguntas frequentes

Como fazer uma etiqueta em braille em casa ou na escola?

Digite a palavra no tradutor braille, confira as letras no alfabeto e marque os pontos em papel adesivo com reglete e punção, a ferramenta mais barata. Para muitas etiquetas, uma rotuladora, uma máquina ou uma impressora braille poupam tempo. Cole sempre no mesmo lugar do objeto e confira com o dedo.

A lei obriga etiqueta em braille nas roupas?

Não há lei federal: o PL 3529/2024 ainda tramita na Câmara. No Piauí, a Lei 7.465/2021 obriga quem fabrica roupa no estado. Na Paraíba, a Lei 13.719/2025 obriga as lojas, exceto microempresas e empresas de pequeno porte, a vender roupas com etiqueta em braille que informe preço, cor, tamanho e natureza da peça.

Os remédios têm braille na embalagem?

Sim, na caixa. A RDC nº 768/2022 da Anvisa exige em braille, na embalagem secundária, o nome do medicamento ou a sua DCB, e também a concentração quando a mesma empresa tem remédios com o mesmo princípio ativo. A cartela e o frasco ficam fora dessa exigência.

Como escrever maiúsculas, acentos e números numa etiqueta?

A maiúscula leva antes a cela de pontos 4 e 6. Cada letra acentuada e o ç têm cela própria. Os números levam antes a cela de pontos 3, 4, 5 e 6, só no primeiro algarismo, e usam as celas das letras de a a j. As regras estão na Grafia Braille para a Língua Portuguesa.